segunda-feira, 14 de julho de 2014

3 - O INIMIGO - Exposição de Efésios 6.10 a 13

3 - O INIMIGO

“Doravante”, diz o apóstolo, “é isto que vocês terão que ter em mente” — e deste versículo dez até ao versículo vinte, ele se põe a tratar da questão mais urgente que o povo cristão defronta. É a luta, o combate que todos os que vêm a este mundo têm que travar. Até aqui examina mos o assunto de maneira geral, introduzindo-o e dividindo a decla ração em suas duas partes principais. Vimos também que o apóstolo pressiona estes efésios, e a nós, com a instrução ministrada porque esta é, evidentemente, a única maneira pela qual esta guerra pode ser travada com sucesso. O cristianismo é uma religião exclusiva; ele reivindica que ele, e somente ele, é a verdade de Deus. E não é só que este é oúnico caminho; tampouco precisa ele de socorro ou de assistência. Não há nenhuma necessidade de adicionar-lhe um pouco de budismo ou de maometanismo ou de confucionismo ou de qualquer outro “ismo”. Ele é o caminho, e o é completo, inteiro. Daí o apóstolo instar com os cristãos a que, não somente o considerem, mas também o compreen dam e, acima de tudo, o apliquem na prática. Chegamos agora à explicação do apóstolo da razão pela qual ele os pressiona com isto de maneira a mais urgente. Isto é bem característico dele. Ele não apenas faz afirmações; ele dá as razões pelas quais as faz. Devemos revestir-nos de toda a armadura de Deus “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim” etc. Este é um dos aspectos mais gloriosos da fé cristã. Você não pode entrar nisso pelo seu raciocínio, porém, no momento em que entra, verá que é a coisa mais razoável do mundo — repleta de elementos para o entendimento, repleta de explicações. O cristianismo, diversamente de tantas seitas, não é apenas algo que nos leva a persuadir-nos sem envolver o nosso pensamento. Ele não nos diz apenas alguma coisa, a qual devemos repetir mecanicamente, seja verdade ou não, e quer nós a sintamos quer não. Isso não é cristianismo. Este sempre dá as razões. Assim, aqui o apóstolo nos oferece a explicação pela qual nos exorta a fortalecer-nos “no Senhor e na força do seu poder” e a revestir-nos “de toda a armadura de Deus.” Precisamos disso tudo; e ele nos diz por que, particularmente nos versículos 11 e 12. Estes versículos constituem uma declaração notável e extraor dinária. Pergunto-me se alguém não terá ficado surpreso por nos
propormos a considerá-la, e se não se terá sentido tentado a dizer, “Bem no meio da vida do mundo como este é hoje, com as condições e situações como elas são, devemos realmente gastar nosso tempo examinando e ponderando o que a Bíblia diz a respeito do diabo e destes principados e potestades?” Se você se sente assim, tudo que lhe posso dizer é que, longe de ser realista, como provavelmente você se imagina, é, dentre todos, o único que não está encarando de modo real a situação do mundo como ela é neste momento. Não há nada mais realista nesta hora do que o que estamos para considerar. Não há nada no mundo que seja tão urgentemente necessário neste momento como entendermos esta coisa da qual o apóstolo nos fala aqui. Não mencionarei nenhum estadista, nenhum partido político, de nenhum país, nem tampouco nenhuma organização social ou política — e, não obstante, aventuro-me a afirmar que o que vamos considerar a seguir é mais relevante para as condições do mundo do que toda a conversa sobre política, sobre relações internacionais e sobre tudo quanto os estadistas e os seus seguidores gostam de abordar. Essa afirmação é forte e ousada, como estou bem ciente; mas se você ao menos crê na Bíblia, verá que o que digo é verdadeiro, inevitavelmente. Estamos tratando, lembre-se, da causa principal da situação do mundo, e por esta razão posso dizer que isto é mais urgentemente relevante do que qualquer outra coisa. Permita-me usar uma comparação que tenho empregado muitas vezes. Parece-me que o que os pensadores moder nos constantemente deixam de fazer é diferenciar entre uma doença propriamente dita e os seus sintomas. Uma doença pode dar surgimento a muitos sintomas. Tomemos um exemplo ao acaso. Com a gripe comum você pode pegar pneumonia. A doença primária está, num sentido, em seus pulmões. Que isto valha, por ora, como uma tosca definição de pneumonia. Mas você verá que aparecerão muitos outros sintomas. Terá dor de cabeça, sentir-se-á febril, sentirá mal-estar e dores estranhas no corpo todo, e poderão ocorrer suores, e assim por diante. Há numerosos sintomas da doença, e o perigo é que passemos o tempo todo medicando somente os sintomas. Você pode tomar várias coisas para aliviar a dor de cabeça, como aspirina, por exemplo, e sua cabeça melhorará por algum tempo. Todavia, não fará nenhuma diferença para a pneumonia. E assim você poderá continuar tratando de um sintoma atrás do outro. Você se verá muito ocupado, e terá que ir tratando de novos sintomas constantemente. Entretanto, o que re almente importa é a doença mesma, e não os sintomas. Qual é o principal problema com o mundo neste momento? Eis aí os estadistas e outros reunindo-se ativamente em conferências, discutindo, suspendendo as reuniões, e depois reunindo-se outra vez. Que se passa? O problema é que eles não se dão conta da natureza da doença, nunca entenderam a causa. E a maior tragédia é que a Igreja cristã, a qual unicamente tem a mensagem que pode pôr às claras a causa e recomendar o único remédio capaz de curar — digo que a própria Igreja cristã, em vez de ensinar o remédio, fica a metade do seu tempo, ou mais, apenas dizendo coisas que os estadistas e os políticos podem dizer. Naturalmente ela faz isso porque quer dar a impressão de que a mensagem cristã é “relevante". Em geral se pensa que a mensagem só é relevante se o mensageiro fala em termos terrenos e temporais. Se você falar acerca destes estadistas citando-os nominalmente, se se ocupar com manifestações particulares do problema, tais como bom bas etc., você estará sendo tremendamente relevante! Que coisa patética! Que coisa trágica! Medicar os sintomas e desconhecer a doença! A tarefa da Igreja cristã é descer à causa fundamental do problema. Somente ela pode fazer isso. E é porque aquilo que estamos exami nando aqui dá o único conhecimento verdadeiro da situação do mundo, e do que se pode fazer a respeito, que eu estou afirmando que essa é a mensagem mais urgentemente relevante para este mundo conturbado dos nossos dias. Mas, naturalmente, como procurarei demonstrar, é uma coisa totalmente ridicularizada pelo mundo. Apesar disso, e na verdade por causa disso, vamos examiná-la. Em primeiro lugar, o apóstolo chama a nossa atenção para o fato do conflito. Notem-se os seus termos: “temos que lutar”. Ora, o termo “lutar” causa muita dificuldade aos comentadores. A dificuldade surge porque o apóstolo diz “temos que lutar” e, depois, quando passa a descrever a “armadura”, emprega termos que nada têm a ver com “luta”. Quando ele passa aos detalhes da armadura, parece estar pensando mais em dois exércitos a defrontar-se em conflito, em dardos de fogo e em espadas. Parece haver alguma confusão. É muito difícil determinar exatamente por que o apóstolo empregou o termo “lutar” (“wrestle”, que se refere mormente a luta livre de atletas). Essa foi a única ocasião em que ele empregou esse termo. A explicação óbvia deve ser que seu desejo é mostrar a natureza íntima do conflito. Embora esteja certo, como veremos, pensar em grandes batalhões formados, e em duas grandes forças antagônicas, devemos compreender que, ao mesmo tempo, é uma questão individual. A idéia de luta leva-nos imediatamente a isto: dois homens atracando-se. Assim, devemos ter em mente os dois aspectos. Somos participantes deste tremendo conflito espiritual que se dá em volta de nós, perto de nós e em nós. Todavia, também estamos engajados individualmente, cada um de nós. Não devemos vigiar somente como partes de um exército; também devemos vigiar individualmente. Acredito que Paulo empregou a expressão “temor que lutar" a fim de mostrar esse aspecto da verdade. Mas depois ele utiliza estas outras expressões: “Tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau” — e então — “havendo feito tudo, ficar firmes”. Ele emprega essas expressões por uma única razão, a saber, pôr às claras a ferocidade e aterrível natureza do conflito, como também, o seu caráter. Como cristãos, estamos envolvidos neste conflito tremendo, lutando, opondo-nos, resistindo a um inimigo que investe. A primeira coisa que você tem que fazer é repelir os ataques, e terá que continuar fazendo isso porque ele continua sendo o inimigo. E mesmo que você obtenha uma vitória temporária, não diga: “Bem, tudo já passou; agora posso ficar sossegado e sair de férias.” Nada disso! “Havendo feito tudo, ficar firmes.” A idéia é que esta é uma guerra sem tréguas, que “não há dispensas desta peleja”, como o Livro de Eclesiastes o expressa (8:8) mas, enquanto estivermos nesta vida e neste mundo, temos que estar cientes do fato de que estamos engajados numa luta, numa peleja, num conflito. É evidente que é preciso dar ênfase a isto, porque há muitíssimos que não o compreendem. E não compreender que você está num combate só pode significar uma coisa, e é que você já foi tão de sesperadamente derrotado e batido, nocauteado, que nem sabe disso — está inconsciente! O que quero dizer é que você foi completamente vencido pelo diabo. Quem não estiver ciente de que há uma luta e um conflito no sentido espiritual, está como que entorpecido e numa condição perigosa. Ao mesmo tempo, por outro lado, as seitas estão sempre aí; e todo o ensino das seitas — não importa qual delas você especifique — sempre é que você pode ficar fora do conflito, de um modo ou de outro. “Ah, sim”, dizem elas, “é certo que há um problema; mas está tudo bem; você faz isto e aquilo, e tudo estará bem.” Essa é a essência do ensino da Ciência Cristã. Não há conflito, não existe doença, não existe dor. Estas coisas são inexistentes, dizem, e você precisa ficar repetindo isto a si próprio, precisa persuadir-se, e por algum tempo você será muito feliz. Mas isto você faz fugindo dos fatos, voltando as costas à verdade, logrando-se a si mesmo. Todas as seitas fazem isso de algum modo, de alguma forma. Elas querem dar-lhe a impressão de que você pode relaxar e ficar tranqüilo; de que não há conflito, não há luta; enquanto isso, o apóstolo diz: “Temos que lutar”. Você está “resistindo”, há um inimigo que o está atacando sempre, e mesmo que você obtenha a sua vitória, “fique firme”, e não deixe de continuar agindo assim. Fique sempre firme sobre seus pés. Noutras palavras, o que é difícil neste mundo é manter-nos firmes sobre os pés, pois há um inimigo que nos está ameaçando sempre e está sempre tentando derrubar-nos. A grande tarefa da vida, a grande obra da vida é ficar de pé, ficar firme! Ora, esta é a apresentação que o apóstolo faz da questão. Não é minha; é dele. Ele multiplica as suas expressões e as repete para fazer-nos compreender esta idéia — de que estamos no meio de um tremendo conflito. Vamos ver agora o que ele tem para dizer sobre a natureza do conflito. Aqui, como não é incomum em Paulo, ele começa com uma negativa. Nesta altura chegamos à própria essência da questão, àquilo a que chamo um caráter e natureza peculiar e essencial da mensagem bíblica, do princípio ao fim. Isto é uma coisa peculiar à Bíblica. A Bíblia não deve ser classificada como qualquer outro livro porque toda a sua perspectiva é diferente — não só difere deles em pormenores. Ela é essencialmente diferente. É um livro “peculiar”, “especial”. E este é o ponto no qual ela se afasta de todos os outros ensinos que se oferecem à humanidade. Procure ver a sua profundidade, que desafia o nosso discernimento e a nossa compreensão. É isso que toma este livro tão maravilhoso, e que prova que ele é o Livro de Deus. Ele desce às profundezas, vai até às raízes. Não há nele nada que seja superficial, nada que seja fútil e chocho. É na verdade uma revelação divina. Faço estas observações preliminares porque para mim a coisa suma mente importante que podemos captar nesta hora é que no mundo, como ele é neste momento, temos um livro-texto, um manual da vida, que de fato nos propicia um entendimento. Somente o cristão com preende o mundo. Todavia ele o compreende porque aceita este ensino como uma parte essencial da mensagem divina. No entanto vou mais longe; o nosso conhecimento disto e a nossa aceitação disto é uma prova cabal e completa da nossa profissão da fé cristã. Portanto, tomo a liberdade de fazer uma pergunta, antes de dar sequer um passo adiante. Estas frases fazem parte do seu pensamento fundamental — “para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo”? “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principa dos, contra as potestades, contra os príncipes das trevas”? Estas frases estão sempre em seu pensamento como parte da sua filosofia cristã, e estão sempre presentes em sua mente? Ao olhar para o mundo de hoje você logo diz, “Nesta passagem está a explicação”? Você pensa assim normalmente? Tudo que digo é que se você não pensa assim, seu tipo de cristianismo é muito defeituoso. Efésios, capítulo 6, versículos 10- 13 é uma parte vital e essencial da fé cristã. Que diz, então, o apóstolo? Vejamos primeiro os termos negativos — “Não temos que lutar contra a came e o sangue”. Os que conhecem bem a Bíblia sabem que o vocábulo “carne” no Novo Testamento, e especialmente nas epístolas de Paulo, é extensamente empregado com referência à velha natureza pecaminosa. Não o velho homem, mas a velha natureza, a natureza pecaminosa que ainda permanece em nós. Mas este não é o único sentido em que o termo “carne” é empregado, e, obviamente, não é este o sentido em que é empregado aqui. O acréscimo da palavra “sangue” põe isso fora de toda dúvida. Na verdade, no grego, “sangue” vem antes de “carne”: “Não temos que lutar contra o sangue e a carne”. Significa natureza humana, significa homem. Assim, Paulo afirma que não estamos lutando somente contra os homens. O nosso problema não é apenas do “homem” ou da “humanidade”, e sim também de outra coisa mais. Temos aqui uma destas proposições fundamentais das Escrituras. Também vemos aqui quanto ela difere da perspectiva do mundo, mesmo em sua melhor e mais elevada expressão. A primeira coisa que você tem que compreender, diz o apóstolo, é que o problema que o confronta, como indivíduo, e o problema que confronta a humanidade toda, não é um problema meramente humano, um problema terreno. É muito maior e, portanto, muito mais difícil. Vejamos a diferença que há entre isto e aquilo que os não cristãos acreditam. Naturalmente o mundo não crê nisto, e não liga para esta negativa. Então, qual é, de acordo com o mundo, a causa dos nosso problemas? Através dos séculos o mundo sempre se inclinou a acredi tar em diversas explicações. Nos tempos em que a Igreja se estabeleceu inicialmente, o mundo acreditava em vários deuses. Havia um Deus da guerra, havia um Deus do amor, havia um Deus da paz, e assim por diante. Nesta medida, você vê, os homens tinham algum discerni mento, pois achavam que o mundo estava sendo influenciado e governado por certos poderes e forças invisíveis. Achavam que tinha que existir um Deus que se mostrava com todo o seu poder na guerra. Depois, certamente havia também um Deus do amor. E, assim, achavam que o que deviam fazer era aplacar estes deuses. Quando o apóstolo visitou a famosa cidade de Atenas, encontrou-a atulhada de altares dedicados aos diversos deuses. A idéia dos atenienses era que, como estes deuses tinham tanta influência sobre o homem e sua vida neste mundo, obviamente o que deviam fazer era colocar-se do lado dos deuses. Assim, tinham uma multiplicidade de altares e levavam as suas oferendas aos vários deuses e lhes prestavam culto. Acreditavam que os seus problemas eram devidos à sua falha em agradar os deuses. Alguns deles acreditavam em espíritos que habitavam nas árvores, nas pedras, no sol, na lua, nas estrelas; tudo isso faz parte da mesma idéia. O politeísmo, o animismo, todas estas coisas, eram apenas o reconheci mento, por parte da humanidade, de que existem outras forças e poderes que não vemos, mas que parecem exercer enorme influência sobre nós. Depois, um pouco afastados disso, outros começaram a ver que esses não eram deuses, porém eram obviamente criações das mentes e imaginações dos homens. Por conseguinte, começaram a falar em termos de destino. “Ninguém sabe qual é o seu destino”, diziam eles, “tudo que sabemos é que parece existir alguma coisa que nos influência e nos governa, e que é muito poderosa, na verdade mais poderosa que nós. Se você está destinado a fazer esta ou aquela coisa, você a fará; se está destinado a que lhe aconteça uma coisa, isto lhe acontecerá.” O fatalismo era uma crença num poder invisível que os homens não conseguiam definir, mas que (como acreditavam) governava as suas circunstâncias e controlava o que lhes acontecia. Entretanto, falando de modo geral, hoje os homens se apartaram dessa crença, embora naturalmente haja muitos que ainda crêem no destino. Há muitos que, a despeito da educação moderna, acreditam na astrologia e em coisas desse tipo neste sofisticado século vinte do qual temos tanto orgulho. Astrologia — a influência exercida pelos astros, o mês em que a pessoa nasce, e assim por diante! Chamo a atenção para tudo isto porque indica que o homem tem consciência de que há alguma coisa fora dele que faz tremenda diferença em sua vida. Por outro lado, o homem científico moderno, em geral não crê nas coisas às quais acabo de referir-me. Sua posição é que não existe nada fora dele, que o problema é realmente o homem propriamente dito e ele somente. Assim é o homem típico, moderno, instruído, moral. Ele não é cristão. Claro que não! Ele absolutamente não acredita na esfera espiritual. É por isso que ele não crê em Deus, na deidade de Jesus Cristo, no Espírito Santo; é por isso que ele não acredita na existência do diabo e dos “principados” e “potestades”, nos “príncipes das trevas deste século.” Isso de esfera espiritual, para ele não existe. Para ele, a crença nisso nada mais é que uma espécie de remanescente daqueles tempos e condições primitivos quando as pessoas acreditavam em espíritos nas árvores, nos riachos, nas pedras e em tudo mais. Contudo, diz ele, nós ultrapassamos essas fantasias. O homem tem se iludido através dos séculos com o destino e todas estas coisas, e com o absurdo da astrologia! Aí está o seu suposto realista, o homem que reivindica poder governar todas as coisas com a sua mente e que acredita que o único problema é o homem propriamente dito. Noutras palavras, todos os nossos problemas decorrem da ignorância do homem, da sua falta de conhecimento e de compreensão, e da sua falta de desenvolvimento. Para falar em termos gerais, este é seguramente o problema mais urgente que o mundo enfrenta hoje, porque, se tomar o ponto de vista do homem moderno, a esfera espiritual é eliminada inteiramente. Mas essa é a posição de grande número dos nossos semelhantes. Então, se o problema é somente o do homem, e a sua ignorância, qual é a solução? Tais pessoas dizem que essa é uma pergunta perfeitamente válida, e que durante os últimos cem anos, ou por aí, pelo menos duas respostas apareceram. A primeira é a idéia de progresso, de desenvolvimento, de evolução. Não devemos perder a esperança, dizem eles, pois, afinal de contas, o homem está apenas no limiar da concretização da sua grandeza e glória, e infindas possibilidades. Eles nos concitam a olhar para o passado e ver que já houve desenvolvimento e progresso. Já abandonamos o animismo, já demos as costas ao politeísmo, já nos livramos do puro e simples fatalismo. Agora pensamos e raciocinamos. O homem está de fato começando a entrar na sua própria realidade. E isto é inevitável porque há uma energia na vida, um élan vital, uma energia vital. É assim que eles se expressam; não são fatalistas, não acreditam em poderes invisíveis! Mas há na matéria uma energia vital, um poder que impulsiona todas as coisas para a frente e para o alto! Este é o conceito do racionalista moderno que só crê nas coisas sobre as quais se pode discutir racionalmente, nas coisas que podem ser senti das, apalpadas, medidas e manipuladas! Você vê, ele tem que retomar e cair numa “energia vital”, “Energia” com inicial maiúscula. Essa é uma parte da sua explicação, é uma parte do conforto que ele está tentando nos dar. Ele nos diz que não fiquemos impacientes, porém que fiquemos firmes e aguardemos. Há esta prova de progresso e de melhoramento, e isto continuará avançando mais e mais, até que finalmente todos os problemas serão extirpados e o mundo será perfeito. Há muitas variações e modificações desse conceito. Não pre cisamos preocupar-nos em tratar delas. O comunismo é uma delas, naturalmente, com o seu ensino sobre o materialismo dialético e sobre a luta entre o capital e o trabalho, entre a oferta e a procura. Tudo isso faz parte do processo pelo qual temos que passar até chegarmos à sociedade perfeita e sem classes. A verdadeira base filosófica do comunismo é o conceito evolucionista da vida. Há muitos que se confessam cristãos e que, ao que me parece, estão cada vez mais adotando a idéia da evolução. Depois, a outra resposta dada pelo homem moderno é que não devemos fiar-nos passivamente nesta inevitável marcha de avanço e progresso. Devemos, em acréscimo, educar-nos uns aos outros, propa gar o conhecimento, aplicar a nossa razão à situação e conseguir que toda gente faça isso. E eles alegam, deveras confiantemente, que, se tão somente agirmos assim, os nosso problemas realmente serão re solvidos. Acaso não é evidente que esta questão é sumamente vital e urgente? O mundo tem vivido baseado nesse ensino durante o presente século. Isso tem recebido muita publicidade atualmente, e nos é dito que, se tão somente pudéssemos ensinar as massas, educá-las e ensiná-las a ra ciocinar, nunca mais haveria guerra. Elas logo veriam que a guerra é ridícula e que precisamos reunir-nos, fazer conferências e conduzir todas as controvérsias amigavelmente, meios pelo quais todos vivere mos felizes para sempre! Muitos acreditam realmente em tal programa; e o resultado, naturalmente, é que, não acontecendo isso, eles ficarão decepcionados; não poderão entendê-lo e ficarão desnorteados. Mas essa é a idéia predominante, a teoria predominante. É assim que nos é oferecido o conforto do processo evolucionista e a difusão do conhecimento, da cultura e da educação. Para mim está quase além do entendimento que alguém que vê o mundo moderno e lê jornal, possa continuar acreditando nessas teorias. Na verdade, ainda que nunca leiam jornal, como poderá alguém que já conheceu uma pessoa instruída, culta, razoável e que, não obstante, falha lamentavel mente em sua vida pessoal, crer nessas coisas? Como é possível crer que a sabedoria, o conhecimento, a instrução e a capacidade de raciocinar e de usar a lógica, constituem a solução do problema, quando o que se vê diariamente nas vidas dos homens e das mulheres prova exatamente o oposto? É espantoso! Mas o que estou interessado em salientar particularmente é que estas teorias são o oposto daquilo que o apóstolo ensina aqui em Efésios, capítulo seis. “Não temos que lutar contra a came e o sangue.” O problema não se restringe apenas ao nível humano. O homem certamente fornece os problemas mas, mas eles só constituem os sintomas da doença; a causa real está mais para trás — “não... contra a came e o sangue”. É neste ponto que eu justifico a minha afirmação original de que o evangelho, e somente o evangelho, é que garante alguma esperança para este mundo perturbado e infeliz. Toda a base da condução dos interesses humanos está na suposição de que só estamos lutando contra a came e o sangue, de que o problema é o homem, e de que, portanto, o problema só pode ser resolvido mediante recursos humanos, terrenos, e por meios e modos planejados pelo próprio homem. É sempre o homem, a came e o sangue, que está sendo considerado, e somente o homem. Os pensamentos do homem natural nunca vão acima desse nível. O espiritual jamais é mencionado. Aí está uma coisa absolutamente básica. Até aqui expus o assunto negativamente, mas agora vamos exam iná-lo positivamente. “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades.” Note-se como Paulo repete a palavra “contra”, para ênfase. “Mau estilo”, você dirá. “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades.” Os pedantes e sabidos editores eliminariam estas repetições de “contra”, não eliminariam? “Contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais.” Aqui estamos, mais uma vez, focalizando diretamente aquilo que é deveras essencial no ensino bíblico e cristão. Qual é o problema deste mundo? Qual é a causa basilar dos nossos problemas? Não é o homem! É o diabo e suas forças e poderes invisíveis. Essa é a proposição. É isto que temos que analisar, ou melhor, é nisto que temos que seguir o apóstolo na análise que faz. Primeiro vamos abordá-lo de modo geral. Eis aqui algo em que não somente não se crê hoje em dia, mas que é rejeitado com desdém, é completamente ridicularizado, e é considerado como a mais gozada de todas as piadas. O diabo! Principados e potestades! Poderes espirituais invisíveis! O homem moderno diz que isto é uma afronta à inteligência humana. “Imagine”, diz ele, “alguém do século vinte propondo pregar sobre o diabo e sobre poderes espirituais invisíveis! É um insulto à inteligência. Por que você não nos fala sobre como resolver os problemas internacionais? Por que não começa uma agitação para acabar com a fabricação de bombas? Por que você não é realista? Por que se nega a ser prático? Você está nos domínios do folclore, você ainda revela uma mente primitiva, ainda pensa em termos de contos de fada. Por que não encara os fatos, as duras realidades da vida como ela é hoje, em vez de falar sobre poderes espirituais invisíveis e sobre o diabo? “Ah”, dizem, “tudo isso já passou, é de tempos idos, é absurdo.” O ensino do apóstolo é total e completamente ridicularizado. Mas o que me inquieta é que não só está sendo ridicularizado pelo mundo não cristão em geral, porém não está recebendo muita atenção do povo cristão, e não está sendo salientado por ele, incluindo-se muitos que se chamam evangélicos (isto é, cristãos bíblicos, conservadores). Muitos cristãos estão tão preocupados com algum pecado particular que os está fazendo tropeçar e cair, e tão preocupados com a sua felicidade pessoal, que jamais ponderam este grande problema. São tão introspectivos e subjetivos, que nunca observam o cosmos em sua totalidade, o grande problema do mundo, esta coisa tremenda que o apóstolo coloca diante de nós aqui. Em que medida, volto a perguntar, este ensino concernente ao diabo e seus poderes entra em nosso pensamento habitual e normal? Diz o apóstolo que jamais devemos relaxar, jamais devemos afrouxar a vigilância, mas devemos estar de pé, firmes, prontos e “em armas” o tempo todo, por causa do diabo e seus poderes. Todo este ensino tem sido ridicularizado. Qual será a nossa resposta? Tomo a liberdade de sugerir algumas idéias e linhas de pensamento. Toda esta questão de acreditar no diabo e nos poderes espirituais associados a ele é, afinal de contas, simples mente o problema de acreditar numa esfera ou reino espiritual. Essa é a questão fundamental: você acredita que existe uma esfera espiritual? Há muitos que se dizem cristãos e que, obviamente, não acreditam. Eles reduziram o cristianismo a um ensino ético-moral, e nada mais. Para eles não há nenhuma esfera espiritual, nenhuma região que esteja acima de nós e nos influencie. Talvez digam com palavras que acreditam nessa esfera, porém em sua vida prática não acreditam. Não estão cientes da sua existência. Naturalmente, se uma pessoa não crê em Deus, estará sendo coerente ao negar-se a acreditar que há diabo e poderes espirituais. Se não acredita em Deus, não devo esperar que acredite no diabo. Mas o que não posso entender é uma pessoa que crê em Deus, e não acredita na existência do diabo. Não posso entender uma pessoa que se levanta na Igreja e declara, “Creio no Espírito Santo”, e depois considera o diabo uma piada! Declara, “Creio no Espírito Santo”, mas não crê na existência de espíritos maus. Tal pessoa é completamente incoerente. Afirma que crê num reino espiritual, no entanto crê somente numa metade dele; não acredita na outra metade. O que está envolvido aqui é toda a nossa atitude para com o reino espiritual que está acima de nós e fora de nós. Ou, deixe-me colocar a questão da seguinte maneira, para que você possa ver com exatidão onde você está, se não acredita na existência do diabo e destes poderes espirituais, ou se não tem certeza sobre isto. Em última instância, o problema não é crer se o diabo existe, é crer na autoridade das Escrituras, pois isso também está intimamente en volvido. Há pessoas que não acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus, que rejeitam a concepção virginal e os milagres, e não crêem na expiação vicária e na personalidade do Espírito Santo; e não me surpreende que rejeitem a idéia da existência do diabo e dos poderes do mal. São pessoas instruídas, doutas, cultas, são gente do século vinte. Elas chegam a este velho Livro e dizem: “Este livro é velho, é um livro como outro qualquer. Há muito lixo nele, muito erro. Os escritores puseram nele aquilo em que se acreditava na época, mas, naturalmente, agora sabemos que não é verdade.” Assim, elas se aproximaram da Bíblia como autoridades; o Livro não é a autoridade, elas é que são. Para fora isto, para fora aquilo, para fora o Espírito Santo, para fora o diabo e muitas outras coisas. Que é que resta? Simplesmente aquilo que eu posso entender e aceitar, aquilo que eu creio ser verdadeiro. Eu sou a minha autoridade, a minha razão está no trono! Portanto, esta não é apenas uma questão de crer que o diabo existe; envolve toda a nossa atitude para com as Escrituras. E é assim porque este ensino sobre o diabo e as suas hostes é uma parte essencial, uma parte vital do ensino bíblico. Acha-se em toda parte das Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse, e principalmente em Gênesis e em Apocalipse. O próprio Senhor nosso ensinou isto, e, se você crê nEle e no Seu ensino, terá que crer no que Ele disse a respeito do diabo e seus poderes. Assim nos defrontamos face a face com esta pergunta: cremos na Bíblia como a nossa única revelação da verdade, e nossa única autoridade, ou estamos confiando em nós mesmos e em nosso entendimento? Míseros vermes que somos, e fazendo do nosso mundo esse caos, com as nossas mentes e com o nosso entendimento, quem somos nós para intrometer-nos na esfera espiritual e dizer o que é verdadeiro e que é falso? Como é ridículo tudo isso! Mais ainda! Crer na existência do diabo e seus poderes é um funda mento indispensável para a crença no ensino bíblico sobre o pecado e o mal. Você não pode crer realmente na doutrina bíblica concernente ao pecado, se não crê na existência e obra do diabo e nos principados e potestades associados a ele. Ademais, crer que existem o diabo e suas hostes é absolutamente essencial para um correto entendimento da doutrina bíblica da sal vação. “Ah, mas”, dirá você, “isso não pode ser. Certamente tudo que é necessário é que eu creia que Cristo morreu na cruz por meus pecados.” Até aqui você tem razão, entretanto, porque foi preciso que Ele viesse? Que fez Ele realmente na cruz? Segundo o apóstolo Paulo, Ele esteve lá “despojando os principados e potestades” e na cruz Ele “os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Colossenses 2:15). Por que Cristo teve que vir? Eis uma das Suas próprias respostas: “Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem; mas, sobrevindo outro mais valente do que ele, e ve- ncendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava, e reparte os seus despojos” (Lucas 11:21-22). Não vá pensar que você pode compreender a doutrina bíblica da salvação e rejeitar a realidade do diabo. Não pode! Você não pode sustentar a verdadeira doutrina da salvação, se não crê na realidade do diabo e dos seus poderes. Você pode apenas ter passado por um pequeno tratamento psicológico que o faz sentir-se feliz, porque julga que os seus pecados foram perdoados; mas não entendeu o ensino bíblico sobre a razão pela qual Cristo veio, o que teve que fazer, a luta e o conflito, a agonia no jardim, as tentações e tudo que sofreu na cruz. Isso não tem sentido para você, nem pode ter. Assim, você não tem o evangelho completo, se é que tem evangelho algum. Em conclusão, tomo a afirmar que você simplesmente não pode compreender a história registrada na Bíblia, toda a história do mundo desde o alvorecer da civilização até à época atual; não pode com preender a história moderna e o que está acontecendo no mundo hoje, a confusão, a espantosa realidade do mundo como ele é, apesar do progresso de que tanto ouvimos falar; menos ainda você pode com preender o futuro, ou ter alguma esperança quanto ao futuro; a não ser que você venha a ter uma clara compreensão daquilo que o apóstolo ensina aqui sobre o diabo e os principados e potestades, sobre os numerosos governantes destas trevas, os espíritos malignos nos luga res celestiais. Talvez você diga que isso é deprimente. Deprimente? Acho isso o ensino mais confortador, prazeroso e otimista que já conheci. O que para mim é deprimente é defrontar-me com uma situação que não posso entender. Se não entendo uma situação, sinto- me perdido. Nunca me contentei em medicar sintomas. Eu sabia que o paciente poderia sentir-se um pouco melhor, porém a questão era: que é que esse homem tem? E eu me sentia frustrado enquanto não soubesse a resposta. É importante saber qual é o problema, fazer uma diagnose; e, no momento em que você tem o diagnóstico certo, sente-se melhor e fica satisfeito porque sabe do que está tratando. Contudo, graças a Deus, este ensino apostólico não para na delineação do caráter do problema. Ele faz isso de maneira muito realista, mas depois nos leva à fonte de poder e da vitória. Ele nos dá uma visão da história que nos toma confiantes e seguros. Apesar de estar combatendo o diabo e os principados e potestades, e lutando contra hordas infernais, posso ser forte “no Senhor e na força do seu poder”. Posso revestir-me de toda a armadura de Deus, posso resistir e, havendo feito tudo, ainda posso ficar firme, e erguer-me com confiança, sabendo que nEle e na força do Seu poder estou seguro, e que a Sua vitória final e definitiva é sempre certa.

2 - O ÚNICO CAMINHO - Efesios 6.10 a 13


2 - O ÚNICO CAMINHO

Chegamos agora à consideração e análise detalhada desta decla ração sumamente importante. “No demais (“Finalmente”), irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.” O apóstolo está exortando estes efésios a que tratem de compreender algo da natureza do combate em que todos estamos in evitavelmente envolvidos por sermos cristãos. Na verdade, este com bate existe, quer sejamos cristãos, quer não. O ensino da Bíblia, de capa a capa, é que este mundo, no qual vivemos, é um campo de batalha, um lugar em que literalmente temos que lutar por nossas almas, temos que lutar por nossa felicidade eterna. O apóstolo dá a estes efésios uma instrução muito específica sobre a natureza desse combate, e quanto ao único modo pelo qual pode ser travado com sucesso. É evidente que a exortação é primariamente para cristãos; toda a sua argumentação está baseada nessa consideração. Ao mesmo tempo, porém, ela contém uma mensagem para todos; pois é correto dizer que este conflito afeta todas as pessoas, quer se dêem conta dele, quer não. Os não cristãos não compreendem o seu próprio mundo no presente; não podem compreender por que ele é como é, e por que sucedem várias coisas. Portanto, enquanto examinamos a instrução do apóstolo com relação ao modo de travar esta grande batalha, veremos, concomitantemente, o desmascaramento do completo fracasso de todos os não cristãos, incapazes até de entender o seu problema, e mais ainda o seu fracasso por não saberem lidar com o seu problema de maneira adequada e com sucesso. Noutras palavras, somos confrontados aqui pelo ensino do apóstolo quanto à maneira pela qual podemos combater vitoriosamente as fileiras dispostas contra as nossas almas e contra os melhores e mais altos interesses de nossas almas. Talvez a melhor maneira de abordar este assunto e de colocá-lo no seu cenário moderno para podermos perceber a relevância disso tudo para a vida como é hoje, talvez a melhor maneira, digo, seja citar algumas palavras que li recentemente num jornal. Um antigo mestre de educação numa faculdade da Grã-Bretanha disse o seguinte: “A Igreja deve tomar iniciativa mais firme sobre as questões morais; as frouxas generalizações deverão desaparecer. A Igreja precisa dar respostas aos reais problemas modernos, os do sexo inclusive. Conquanto a base religiosa ofereça maior esperança de sucesso, nunca deverá ser consi derada como o único modo de ensinar moralidade; doutra maneira, vamos ficar bitolados". Esta é uma declaração típica da atitude de muitos no mundo de hoje para com o problema tratado aqui pelo apóstolo Paulo. Abstenho-me de fazer certos comentários óbvios sobre esse pronunciamento, pois só estou interessado nele porque acho que nos ajudará a entender o ensino do apóstolo. Deixando de lado por um momento as considerações detalhadas, ponderaremos o ensino do apóstolo de modo geral, naquilo em que ele dá uma resposta àquele tipo de declaração. O referido mestre emprega a palavra “frouxas” — ele não quer “frouxas generalizações”. Todavia, pobre homem, a decla ração que fez não passa de uma frouxa generalização! Contudo, ignoremos isso. Ela é um dos típicos clichês modernos — “A Igreja deve fazer isto e não deve fazer aquilo; está chegando a hora em que a Igreja...” Todos nós conhecemos bem essas observações. Declarações deste jaez invariavelmente se baseiam na ignorância do que a Igreja é, e de qual é a natureza do seu ensino. Na passagem de Efésios que temos diante de nós, o apóstolo está realmente dizendo que o seu ensino é o único modo de lidar com problemas de conflito. Diz o citado mestre que “conquanto a base religiosa ofereça maior esper ança de sucesso, nunca deverá ser considerada como o único modo de ensinar moralidade; doutra maneira, vamos ficar bitolados.” O apóstolo, por outro lado, diz aberta e especificamente que o caminho que ele propõe é o único que leva à vitória. É por isso que há aquela nota de urgência em seu ensino e, como eu já disse, por isso vem como uma espécie de toque de clarim: “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus.” Se você deixar de fazer isto, será derrotado, já estará acabado antes de começar. O método do apóstolo é o único. Não me desculpo por dizê-lo. Não temos nenhum medo desta acusação de estreiteza mental. Quando se sabe que seguir certa receita é a única maneira de curar uma moléstia, que essa receita é específica, que com toda a certeza vai produzir a cura, e que nenhuma outra coisa poderá fazê-lo, não se vai dizer que é ser bitolado usar esse remédio e negar-se a perder tempo com outros remédios. Isso não é ser bitolado; é ser sensato, racional e sadio. Todo tipo de especialização é estreito, neste sentido. Vivemos numa época de especialização; mas nunca ouvi ninguém opinar que um cientista especializado em átomos é bitolado porque dedica todo o seu tempo a esse ramos da ciência. Claro que não! Isso é bom senso, é sabedoria; é concentrar-se no que importa, no que é poderoso, no que dá resultado. Deixem-me, porém expor a minha tese em termos positivos. A reivindicação da fé cristã, aberta e especificamente, é que ela — e somente ela — pode tratar deste problema. O evangelho de Jesus Cristo não é apenas uma dentre muitas teorias, doutrinas e filosofias que se confrontam com o mundo. Ele é singular, é único, está absolutamente sozinho. A Bíblia não é apenas um livro entre muitos. É o Livro de Deus, é um Livro único, é o Livro, isolado de todos os demais. Precisamos dar ênfase a isto porque é a base da fé cristã. A Igreja não é apenas uma instituição entre muitas; ela alega que é inteiramente única, como instituição; ela afirma que é o corpo de Cristo. Falamos porque temos uma revelação. A Bíblia não nos dá uma teoria, uma especulação, uma tentativa de chegar à verdade. A posição de todos os que escreveram os livros da Bíblia é muito semelhante àquilo que o apóstolo diz de si próprio no capítulo 3 desta Epístola aos Efésios: “Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação.” O apóstolo não se dirige aos efésios dizendo: “Ouçam, muita gente lhes tem oferecido conselho e ensino; bem, eu também estudei bas tante, e cheguei a esta conclusão; portanto, é isto que eu lhes sugiro.” Esse não foi o caso, de maneira alguma! Diz ele: “Uma revelação me foi dada.” Não é uma mensagem idealizada por Paulo; a mensagem lhe foi dada pelo Senhor, pelo Senhor da Glória, no caminho de Damasco. Ele o deteve e o capturou e lhe disse, noutras palavras: “Vou enviar-te como ministro e testemunha a este povo e aos gentios” (Atos 26:16- 18). A comunicação divina é a base fundamental da fé cristã. É, pois, tolice considerar essa fé como uma entre muitas. Não. Como o apóstolo Pedro afirmou uma vez para sempre no princípio da Igreja, quando ele e João foram presos e acusados perante as autoridades de Jerusalém, “nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). Nenhum outro! Não há nem mesmo um segundo! Ele é o único, e basta; não é necessário nenhum acréscimo. Ele, e somente Ele. E essa nota se vê em tudo que o apóstolo diz. Por essa razão há tanta urgência no que diz, por isso ele procura constrangê-los com a sua mensagem. Esta é a única esperança. Se assim não fosse, não haveria nada mais. Este é um pronunciamento dogmático; e quem pede desculpas pelo seu cristianismo, ou tenta acomodá-lo, ou fica dizendo que ele é o melhor entre vários, está virtualmente negando o ponto mais fundamental da posição cristã Contudo, não devemos parar numa simples asserção dogmática, mas devemos pôr-nos a demonstrá-la. Creio que se você recorrer às evidências da história, chegará à conclusão de que este é o único caminho. Vá ao passado, reveja a história dos séculos até onde puder ser conhecida, examine livros da história secular, veja a história como está registrada nas páginas do Velho Testamento, e verá, fora de toda dúvida ou questionamento, que a asseveração do apóstolo está plena e completamente comprovada. Pode-se ver isso em miniatura, por assim dizer, na história dos filhos de Israel. Sua história é que sempre que eram fiéis a Deus e O adoravam, obedecendo a Seus mandamentos, tudo lhes ia bem; ser viam de modelo e exemplo para as nações, e com alto grau de sucesso; porém toda vez que se afastavam de Deus e contemplavam os ídolos doutras nações, ou adotavam a religião delas ou as suas filosofias, tudo lhes ia mal. Este é o princípio que emerge quando se lêem as páginas do Velho Testamento. Todavia a exposição mais impressionante, o sumário perfeito de toda esta argumentação, é da lavra do apóstolo Paulo, na Epístola aos Romanos, começando no versículo dezoito e indo até o fim do capítulo primeiro. Diz ele que as nações e os povos que, com suposta “sabedoria”, voltaram as costas a Deus, o Criador, sempre se tomaram loucos — “Dizendo-se sábios, tomaram-se loucos.” Depois ele começa a fazer um relato da terrível degradação moral desses povos, as perversões e obscenidades em que eles caíram. “Ah”, diz o nosso mestre moderno, “a Igreja precisa falar especificamente sobre sexo...”. Muito bem, a Igreja faz isso! Se você quiser saber o que ela tem para dizer, leia a segunda metade do capítulo primeiro da Epístola aos Romanos, e verá um relato de todas as perversões modernas, de todas as loucuras que estão desgraçando a vida na época atual. Já aconteceram muitas vezes no passado. Quando, pergunto, é que isso acontecia? Sempre que o homem, com sua suposta sabedoria, afastava-se do Criador e prestava culto à criatura. Toda a história da raça humana evidência o que o apóstolo afirma. Antes de Cristo vir ao mundo, todas as outras coisas tiveram a sua oportunidade. Os filósofos gregos tinham florescido, os maiores deles já tinham ensinado as suas crenças. No entanto, eles não conseguiram tratar do problema do pecado; seu ensino não era ade quado, e já tinha fracassado. Havia também o grande Império Romano com o seu sistema de leis; mas havia um câncer no próprio coração do Império, e, finalmente, ele sofreu colapso, não por que os deuses dos godos, dos vândalos e dos bárbaros tivessem realizado façanhas superiores, mas por causa da podridão moral que carcomia o seu próprio coração. Foi essa a causa do “Declínio e Queda” do grande Império Romano, como todos admitem. Noutras palavras, a história comprova o ensino do apóstolo. Mas, desafortunadamente, a história moderna, a história contem porânea, também prova a minha tese. É aí que vemos a relevância deste ensino. É como ele é atual! Como nos fala na hora presente! Lemos nos nossos jornais da semana passada declarações como as do Secretário da Saúde da Cidade de Edimburgo, e de vários outros secretários da saúde em seus relatórios anuais. “A Igreja”, diz o mestre-preletor anteriormente citado, “precisa dar uma resposta ao problema do sexo.” O que os secretários da saúde estão relatando é que há um pavoroso aumento das doenças venéreas, principalmente entre os jovens e os adolescentes. É esse o problema que nos confronta. Este problema moral passou a ser o mais grave e o mais urgente — ocorre um sério esfacelamento da moralidade. Dizem-nos que somos confrontados por uma geração amoral, por pessoas que parecem não ter nenhum senso moral! Não esqueçamos, porém, que esta situação deve ser considerada à luz das excepcionais facilidades, oportunidades e vantagens que estão à disposição desde 1870. Este homem que fala que a religião não é a única solução é um professor de educação, e tem havido grande abundância de mestres e preletores desde 1870. E, todavia, aí está o nosso grande problema — a imoralidade, os vícios e a maldade! Mais que nunca antes, o mundo multiplicou as suas instituições que cuidam dos problemas morais e sociais no presente século. Clubes, instituições, representações cultu rais têm-se multiplicado sucessivamente. Jamais o governo de outro país gastou tanto na tentativa de cuidar dos problemas morais e sociais como a Inglaterra gastou no século atual. E, contudo, aí estão estes homens dizendo, um após outro, que os padrões morais estão se deteriorando quase a cada hora, semana após semana, e que o problema vai ficando aterradoramente difícil de resolver. Eles perguntam: que se pode fazer? Diz o mestre em questão que as coisas chegaram a tal ponto que a Igreja tem que fazer alguma coisa, a Igreja tem que começar a falar. Entretanto, depois ele estraga tudo, dizendo à Igreja o que ela tem que falar; e o que ele diz, como lhes mostrarei, está completamente errado! Qual, então, é a situação? É na medida em que a religião declinou neste século que o problema moral se tomou mais grave. Lembremos que temos dois blocos de estatísticas. Há as estatísticas dos secretários da saúde, que provam que todos estes terríveis problemas e doenças estão aumentando. Mas há outras estatísticas, as da Igreja. O número de membros de Igreja diminui ano após ano; o número de interessados no evangelho está decrescendo; o número de alunos da Escola Dominical é cada vez menor. As duas coisas andam juntas. À medida que a religião desce, todas estas outras coisas sobem. Estou dizendo isso tudo simplesmente para justificar a asserção do Novo Testamento de que o seu ensino é o único caminho, e que não há outro. A situação moderna está provando isso diante dos nossos olhos e, apesar disso, o nosso professor de educação afirma que o ensino da Bíblia não deve ser o único. Diz ele que “talvez esse ensino dê a maior esperança de sucesso”, porém seria “estreiteza mental” dizer que esta é a única resposta e solução. Bem, que ele mencione outras! Que terá ele para mencionar? A educação? Isso já foi experimentado. Deixemo-lo mencionar vários clubes. Já os experimentamos igualmente, como também as associações culturais. Ainda estamos experimentando todas essas coisas. Que loucura, que ridículo, proclamar estes clichês e não enfrentar os fatos! Há, todavia, mais uma razão pela qual esta é inevitavelmente a verdade; trata-se da natureza da luta em que estamos engajados. Toda a história passada o prova, a situação moderna o prova. Mas, fora isso, a própria natureza da luta faz que esta proposição seja inevitavelmente verdadeira. Como? A própria natureza do homem toma absolutamente inevitável uma guerra. O erro fatal que constantemente se comete acerca do homem é considerá-lo unicamente como intelecto e mente; e, portanto, toda a base do ensino secular é que tudo de que se necessita é falar aos homens acerca da natureza má de certas coisas e das más conseqüências de sua prática, e então eles pararão de praticá-las. Inversamente, se lhes dissermos que pratiquem certas coisas porque são retas, boas, verdadeiras e nobres, eles se lançarão empós delas e as praticarão. Que ignorância da natureza humana! Não sou eu somente quem fala assim. Interessei-me recentemente em ler uma resenha de parte da autobiografia de um bem conhecido escritor moderno, um escritor cético e irreligioso, Leonard Woolf. A resenha foi escrita por outro cético literário, Kingsley Martin. Mas, o resenhista, não obstante, tinha chegado à conclusão de que o problema com toda esta escola a que pertence Leonard Woolf é apenas este, que não enxergam que, no principal, o homem é irracional. Ele usou o que me pareceu uma ilustração muito boa. “O que Leonard Woolf e todos os seus companheiros, tais como Bertrand Russell e outros, nunca puderam captar é isto”, disse ele, “que o homem é uma espécie de “iceberg”. Acima da água fica certo volume, talvez cerca de um terço, que pode parecer muito branco, no entanto abaixo da superfície ficam dois terços fora de vista, nas profundezas, na escuridão. Escritores como Leonard Woolf, diz Kingsley Martin, não compreendem que o homem é dominantemente irracional. O que ele quer dizer, naturalmente, é que o homem não é governado por sua mente, por seu intelecto, por seu entendimento, e sim por seus desejos, ímpetos é instintos, por aquilo que os psicólogos chamam “impulsos”. Estas são as coisas que controlam e dominam o homem; e o problema que confronta o mundo na era presente é o desses “impulsos” instintivos. Pode-se ver isso tudo no plano nacional e internacional, como também no caso do indivíduo; e é isso que toma tão infantilmente ridículas todas as afirmações otimistas sobre alguma organização mundial, de que iria eliminar a guerra. A guerra é pura loucura, de qualquer ponto de vista. É desperdício de dinheiro, é desperdício de vidas, é uma maneira infantil de resolver contendas e problemas. Como se pode resolver um problema do governo ou qualquer outro problema simplesmente matando-se uns aos outros? Eu repito, a guerra é pura doidice; não há nada que se possa dizer em seu favor. Então, por que as nações brigam e se preparam para a guerra? A resposta é que não são governadas por suas mentes e intelectos, mas pelos dois terços que estão debaixo da superfície, a parte do “iceberg” que não se vê — ambição, avareza, orgulho nacional, desejo de posse e de se tomar cada uma maior do que as outras. São sempre estas coisas que causam guerras. “Donde vêm as guerras e pelejas entre vós?”, indaga Tiago. “Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam? ” (Tiago 4:1). Esse é um fato, quanto a indivíduos e quanto a nações; e desde que é um fato, segue-se que nada, senão aquilo que possa lidar com estes dois terços poderosos e ocultos, pode realmente providenciar um remédio para a situação. O evangelho reivindica que ele, e só ele, pode fazê-lo. Não há nenhuma outra coisa que o possa. Subseqüentemente, consideremos o inimigo que se levanta contra nós. “Não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais damaldade, nos lugares celestiais.” “Revesti-vos de toda a armadura de Deus”, diz o apóstolo, “para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.” Erga todos os seus projetos e ensinos morais contra as ciladas do diabo, e ele sorrirá para você com desprezo. Claro! Quão completamente inadequado tudo isso é! Desenvolveremos este ponto mais tarde. Ademais, consideremos o padrão que nos pedem que atinjamos. O cristianismo não diz apenas que sejamos amáveis, bons, limpos e de bom nível moral. O cristão não é simplesmente uma pessoa gentil e respeitável. Por pensarem que a simples respeitabilidade é cristian ismo, muitos abandonaram a Igreja. Dizem eles que esse resultado pode ser obtido fora da Igreja, e apontam para pessoas amáveis, bondosas e com boa moral, que não são cristãs. E esse argumento é perfeitamente válido. Entretanto, a resposta é que isso não é cristian ismo. O cristão não é uma pessoa que apenas não faz isto, isso e aquilo. O cristão é positivo. Ele é chamado para ter “fome e sede de justiça”; para ser “limpo de coração”; para ser “perfeito como perfeito é o seu Pai que está nos céus”. Isso é cristianismo! Ser como Cristo, viver como Ele viveu! E no momento em que você considerar o padrão, verá como são completamente impossíveis e inadequadas todas estas outras sugestões propostas. Podemos, pois, resumir tudo afirmando aberta, franca e confessadamente, sem envergonhar-nos, como implicitamente o apóstolo faz nesta passagem, que este, e somente este, é o único caminho da vitória e do triunfo. E por ser assim é que o Filho de Deus veio ao mundo. Se alguma outra coisa pudesse ser suficiente, ele nunca teria vindo. Jamais teria havido a Encarnação, e menos ainda a morte na cruz, se isto não fosse verdade. “O Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” Este é o princípio, o alicerce e a base da posição cristã. Em certo sentido Cristo veio porque Ele tinha que vir para haver salvação. Veio porque o homem falhara completamente. Sabedoria de Deus, cheia de amor! Quando tudo era pecado e só vergonha, veio o segundo Adão para combater e para ser o nosso Redentor. Este foi e continua sendo o único caminho; não há outro. Que o mundo, com a sua suposta sabedoria, lhe chame “estreiteza mental”. Enquanto agir assim, ele continuará a degenerar moral e eticamente, e a cobrir-se de chagas em sua iniqüidade. O caminho cristão é o único caminho. Agora vamos considerar um segundo ponto geral. Pela declaração do mestre que estamos analisando, vemos que o cristianismo está sujeito a ser mal compreendido e, infelizmente, isso é uma coisa que tem acontecido repetidamente através dos séculos. Nada há tão trágico e triste como compreender erroneamente o cristianismo e a mensagem cristã. Há pessoas que, como este professor de educação, estão muito dispostas a dizer: “A Igreja tem que fazer a sua contribuição. Talvez o cristianismo seja a melhor esperança de que dispomos. Não é nossa única esperança, porém talvez seja a que tem maior probabilidade de levar a resultados, de modo que a Igreja tem que desempenhar o seu papel.” Os governos estão prontos a dizer isto em ocasiões de crise. Quando o problema se toma insolúvel, eles dizem: “Pois bem, agora, que é que a Igreja tem para dizer?” E esperam que a Igreja faça algumas declarações gerais que melhorarão o tom moral da sociedade. A Igreja tem que desempenhar o seu papel! Sim, mas esta atitude revela, como digo, uma completa ignorância quanto ao que é realmente a mensagem da Igreja. Tem havido duas principais espécies de incompreensão neste con texto particular. A primeira é que o cristianismo e sua mensagem não passam de um ensino que nós mesmos temos que aplicar. Isso está na raiz do entendimento errôneo do mestre cuja declaração estamos examinando. Éuma falácia muito antiga. Foi o real problema do início do século dezoito, antes da ocorrência do grande Despertamento Evangélico. Foi a falácia total dos chamados deístas, e doutros. Ele diziam que Deus criou o mundo como alguém que fabricou um relógio, deu-lhe corda, e depois não se preocupou mais com ele, exceto no sentido de que Ele lhe havia dado certo ensino moral. Assim, mera mente equiparavam o cristianismo com um ensino e uma moralidade que instruem as pessoas a viverem uma vida saudável. Thomas Amold, diretor da famosa escola pública da cidade inglesa de Rugby no século dezenove, foi culpado de cometer exatamente a mesma falácia: esse foi também o seu ensino. Às vezes este é conhecido como “religião de escola pública”, e ensina que cristianismo é aquilo que faz do indivíduo “um pequeno e bondoso cavalheiro.” Basta abster-se de certas coisas e praticar outras. Isto não passa de ensino ético, moral. Ora, isto era uma trágica incompreensão da posição toda, pois considerava o cristianismo apenas como um ensino entre vários, por exemplo, os de Platão, Sócrates, Aristóteles, Sênica e outros, que ministravam ensinamentos morais, idealistas, elevados. Segundo aquele conceito, o cristianismo é apenas um outro ensino, e talvez o melhor de todos; daí, devemos dar-lhe muita atenção. E não nos esqueçamos de que o finado Sr. Gandhi, de época recente, sustentava um ensino muito elevado e nobre; e existem vários outros. Eles acrescentam à sua lista de grandes mestres o nome “Jesus”, como Lhe chamam, e geralmente Ele vem nalgum ponto próximo do centro. Alguns são postos em posição superior a Ele, outros são considerados inferiores a Ele. Mas esse ensino e discurso simplesmente reduz o cristianismo a nada mais que um ensino ético, um ensino moral — apenas uma variante do tema da “Bondade, Beleza e Verdade” a que devemos aspirar. Justamente porque verdadeiras multidões consideram isso como cristianismo, principalmente do século atual, é que a Igreja está como está. Esse foi o ensino da escola teológica denominada “Modernismo” ou “Liberalismo”, que penetrou na Inglaterra em meados do século passado. Seu tema era “o Jesus da história”. Eles eliminaram os
milagres, na verdade todo o elemento sobrenatural, e a expiação substitutiva. Quem é Jesus? “Ah”, eles diziam, “Jesus é o maior mestre religioso que o mundo já conheceu. Ouça o Seu ensino, imite o Seu exemplo, siga-O; se você fizer isso, será um bom cristão. Não se preocupe com doutrinas; elas não são importantes; o que importa é o ensino de Jesus.” Assim o cristianismo foi reduzido a um código e um ensino de ética e moral. Isso leva inevitavelmente ao fracasso e à ruína, pois deixa toda a ação conosco como indivíduos. Obrigam-me a admirar esse ensino, depois requerem que eu o aceite e em seguida tenho que começar a pô- lo em prática. A questão é deixada inteiramente comigo. “Mas”, dizem eles, "olhe para o exemplo de Jesus.” O exemplo de Jesus? Não conheço nada que seja tão desanimador como o exemplo de Jesus! Quando contemplo Sua estatura moral, Sua perfeição absoluta, quando O vejo andar sem pecado por este mundo, sinto que já estou condenado e sem esperança. Imitação de Cristo? É o maior absurdo jamais proferido! Imitação de Cristo? Eu, que não consigo satisfazer a mim mesmo e às minhas próprias exigências, e menos ainda às exigências alheias — devo imitar a Cristo? Os santos me fazem sentir vergonha de mim mesmo. Leio sobre homens como George Whitefield e outros, e sinto que nem sequer comecei. E, todavia, me dizem que devo tomar este ensino ético do Sermão do Monte, este ensino social idealista, e pô- lo em prática! “É tão maravilhoso”, dizem eles, “isso lhe será estimu lante; olhe para Ele e siga-O!” Não é de admirar que o resultado tenha sido um fracasso, e que muitas pessoas estejam abandonando a Igreja; não é de admirar que nos defrontemos com um colapso moral neste país e em todos os países na época atual; pois o ensino ético não cristão deixa isso tudo comigo, embora eu seja destituído de força e de poder. Assemelho-me ao apóstolo Paulo por natureza, e digo: “Ah, com minha mente vejo o que é certo, mas acho outra lei em meus membros que me arrasta para baixo. Com minha mente recebo, aceito e admiro a lei de Deus, porém há esta outra lei, esta outra coisa, agindo dentro de mim e me fazendo cativo da lei do pecado e da morte que está dentro de mim” (cf. Romanos 7:14-15). Há essa terça parte do “iceberg”, por assim dizer, acima da água e voltada para o sol; mas estou ciente dos outros dois terços que me arrastam para baixo, para o fundo e para a escuridão. “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará?” Essa é a situação inevitável. Se o cristianismo é apenas um ensino moral, um ensino ético, é tão inútil como todos os demais. Está provado que o caminho “cristão" é inútil toda vez que o reduzem a esse nível. O cristianismo, no entanto, não é um simples código de ética. Os nossos educacionalistas não podem pura e simplesmente virar-se para nós e dizer-nos: “Muito bem, pois; vamos lá, vocês, representantes da Igreja cristã. Não sejam bitolados, mas venham dar-nos o seu auxílio, o seu ensino; queremos saber o que vocês pensam sobre sexo e sobre muitos outros fatores da vida.” Respondo que o que é preciso não é o que eu penso sobre sexo, e sim um poder que liberte o homem do domínio e do controle exercidos pelo sexo. E vasto o conhecimento sobre sexo. Ah, as pessoas de hoje sabem demais sobre sexo; sabem muito mais do que os seus antepassados. Estão lendo livros sobre isso — romances, livros escolares, etc. — e quanto mais lêem, piores ficam. Essa leitura só serve para agravar o problema. Não é de conhecimento que precisamos; é de poder. E é aí que os sistemas ético-morais sucumbem e falham completamente. Eles não têm nenhum poder para oferecer, absolutamente nenhum. Portanto, devemos tomar cuidado para não reduzir o cristianismo a mero ensino ético-moral. Não permita Deus que alguém ainda seja mantido nessa ignorância e cegueira! Todo esse ensino foi experimentado exaustivamente durante cem anos ou mais, e falhou completamente, tanto no caso dos indivíduos, como também nas esferas nacional e internacional. Mas devo dizer uma palavra acerca da outra forma de incompreen são. Aqui, de novo, há uma história interessante e fascinante. Há os que dizem: “Não, não basta apresentar este ensino aos homens e dizer-lhes que o levem avante, porque as forças contra nós são demasiadamente grandes. Estamos contra o mundo, a carne e o diabo. Há tudo aquilo de que somos conscientes dentro de nós mesmos e, então, quando anda mos pelas ruas e vemos os cartazes e os anúncios, e lemos os jornais, o pecado se insinua e nos tenta. Vemos isso por toda parte ao redor de nós, nas propagandas, nas roupas e em tudo que caracteriza a vida de uma grande cidade, tal como a nossa! Como podemos lutar contra tudo isso?” “Não”, dizem eles, “só há uma coisa que fazer. Se a pessoa quiser salvar a sua alma e viver uma vida saudável e pura, terá que livrar-se disso tudo, terá que segregar-se.” Noutras palavras, o segundo tipo de incompreensão do ensino cristão é aquele que podemos resumir sob a idéia de monasticismo. Aí está uma história maravilhosa. Há algo acerca das pessoas que deram surgimento à idéia monástica (na cristandade) que provoca a admiração da gente. De qualquer forma, eram homens sérios e preocupados com as suas almas, com as suas vidas e com o seu viver diário. Isso foi a maior coisa da vida deles; tanto assim que eles renunciaram à profissão, renunciaram ao lar, renunciaram a tudo que lhes era caro e se retiraram para um mosteiro, para terem ali o que eles chamavam de vida “religiosa”. A idéia era que a única maneira pela qual eles poderiam travar esta batalha era afastar-se do inimigo o mais possível. Pois bem, há nesse princípio alguma coisa certa e verdadeira, como explicarei. O apóstolo Paulo, dirigindo-se aos romanos no capítulo 13 da sua epístola, diz: “Não tenhais cuidado da carne” (ou, na versão utilizada pelo autor, “Não façais provisão para a carne”, versículo 14.) Seria bom para todos nós se tomássemos menos tempo lendo os nossos jornais, mantivéssemos o nosso olhar diretamente para a frente quando anda mos pelas ruas, não olhássemos para certas coisas e não fôssemos a certos lugares. Até aqui, ótimo! Mas certas pessoas levaram isso para mais longe; elas diziam que precisamos sair do mundo. Temos que concentrar-nos somente nisto, precisamos renunciar à maneira comum de viver, e isolar-nos; precisamos ir para um mosteiro ou tomar-nos eremitas a viver no alto de uma montanha, ou retirar-nos para alguma cela num lugar qualquer, sendo esse o único meio de escape. E nem aí elas param. Dizem essas pessoas que precisamos sujeitar o nosso corpo, pelo que temos que jejuar duas vezes por semana, talvez três. Temos que fazer outras coisas também, talvez vestir uma camisa de pelo de camelo e golpear e abater de várias maneiras este nosso corpo e insultá-lo quanto pudermos. Elas se entregavam ao que era deno minado “flagelação”; batiam nos seus próprios corpos, escarificavam sua came, tudo na tentativa de sujeitar estes poderes que estão contra nós neste grande combate de que Paulo está falando. A melhor descrição que já li de tudo isso acha-se num livro intitulado “Visão de Deus” (The Vision ofGod), as Preleções Bampton proferidas lá por 1928 por Kenneth E. Kirk. Vê-se ali uma narrativa de como surgiu essa idéia, e isso num período assaz primitivo da história da Igreja. E essa mesma escola de pensamento tem persistido de lá para cá. Isso, reitero, não é cristianismo, e pelas seguintes razões: ainda que você abandone o mundo e todas as suas possibilidades, e vá viver como monge ou eremita numa cela; ainda que você tenha abandonado o mundo, não abandonou a si próprio — as duas terças partes submersas do “iceberg” continuam com você! Você não deixa a sua natureza pe caminosa fora do mosteiro. As más imaginações e os maus pensamen tos continuam com você; não pode livrar-se deles. Aonde quer que você vá, eles vão; o seu próprio ser, a sua natureza, esta parte que o arrasta para baixo estará com você na cela exatamente como estava com você quando caminhava pelas ruas da cidade. Não somente isso; os poderes do mal também estão ali tanto quanto estavam em sua companhia quando você convivia com outras pessoas. “Porque não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” Muralhas de pedra não os manterão fora, barras de ferro não os manterão fora, portas trancadas não os manterão fora; onde quer que você esteja, ali estarão eles. Eles são espirituais, são invisíveis, podem penetrar em todo lugar, e estão com você na sua cela. Você não pode livrar-se deles. E por estas razões, o grande sistema do monasticismo finalmente ruiu completamente (embora noutros países não tão completamente.) Toda essa problemática pode ser resumida com a história de uma pessoa, Martinho Lutero. O que foi exatamente que Lutero descobriu? Ele era um monge, lá em sua cela, jejuando, afadigando-se, orando, tentando livrar-se do corpo, tentando vencer estes inimigos espirituais. Mas quanto mais tentava, mais parecia aproximar-se do fracasso completo e do desespero total. E por fim ele enxergou! Suas idéias monásticas eram o inverso do cristianismo; não eram cristianismo, de modo nenhum. O cristianismo era uma coisa essencialmente diferente. Ele viu que poderia ser cristão em pleno mundo, poderia ser um cristão “varrendo o soalho”, como ele o expressa. Você não precisa ser cenobita, não precisa tomar os votos de castidade e permanecer solteiro, para ser um pregador. Não. Como casado, você é tão elegível como aquele que renuncia ao sexo. De repente Lutero viu que o caminho monástico não era o caminho de Deus, e esse foi o começo da grande Reforma Protestante. Graças a Deus, aquilo de que Lutero teve que se desfazer não é o ensino cristão, pois o fim lógico do argumento monástico é que você não pode ser um cristão verdadeiro e continuar vivendo no mundo. Naturalmente, a igreja católica romana não ensi nava isso, porém dividia os cristãos em “religiosos” e “leigos”, e ensinava que estes podiam receber ajuda apropriando-se do excesso de justiça ou retidão daqueles — a doutrina completamente antibíblica da supererrogação. Vê-se quão essencialmente isso difere do ensino do Novo Testamento. Aqui vamos gente comum, servos, escravos, mari dos, esposas, pais, filhos. O apóstolo não lhes diz: “Saiam todos vocês para um mosteiro; tratem de ir para algum lugar fora do mundo”. Nada disso! Graças a Deus que não é isso. Isso seria um evangelho só para os ricos. E não somente isso; não haverá confissão cristã e testemunho cristão no mundo. Que negação é isso, em última instância, da glória da fé cristã! Qual é o método cristão? Concluo com um texto. Não se trata de, “Procure imitar a Cristo, adote o Seu ensino ético-moral e tente pô-lo em prática”. Não se trata de, “Retire-se e faça-se monge ou eremita”. Mas, simplesmente onde você se encontra, em pleno mundo, com a mal e o pecado a rodeá-lo desenfreadamente, e toda gente e tudo quanto há fazendo o que podem para desanimá-lo e arrastá-lo para baixo, sim plesmente como você está e onde está, “Fortalecei-vos no Senhor e na
força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.” Não é retiro, não é fuga, não é tentar fazer alguma coisa impossível. Não. É este evangelho sobrenatural, miraculoso, que nos capacita a sermos “mais que vencedores” sobre tudo que se põe contra nós. Tratei disso tudo por causa da terrível incompreensão do cristia nismo que se vê nos jornais, e por sua incapacidade de entender a própria base da fé cristã. Graças a Deus, esta nossa fé é inteiramente diversa do que os homens imaginam. É sobrenatural, é “a vida de Deus na alma do homem”, e, sendo assim, coloca diante de mim, não somente uma esperança; oferece-me uma vitória segura e certa.

1- INTRODUÇÃO - Exposição de Efésios 6:10 a 13

Efésios 6:10-13 No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.

1- INTRODUÇÃO

“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.” Estas palavras introduzem uma exposição que, começando neste ponto, vai mais ou menos até o fim desta Epístola aos Efésios. É uma das mais ressonantes e eloqüentes declarações do apóstolo Paulo de como se deve viver a vida cristã. À palavra “Finalmente” * é que primeiramente devemos dar atenção, porque seu significado precisa estar claro para nós. “Finalmente, irmãos meus”, diz Paulo. Que quer ele dizer com “Finalmente”? Estará dizendo apenas, “De fato já disse tudo que queria dizer”? Será apenas uma indicação de que a carta está perto do fim? Naturalmente, num sentido é isso. Mas se o considerar mos meramente sob essa luz, perderemos o verdadeiro ponto daquilo que está sendo dito aqui. Não se trata apenas de uma espécie de pós- escrito; não se trata de um pensamento que ocorreu depois. Não é que o apóstolo, tendo dito tudo que tencionava dizer, concluiu sua carta e, então, lembrou que havia uma outra coisa que devia ser mencionada. Noutras palavras, há uma ligação muito direta entre o que Paulo começa a dizer aqui e o que tinha acabado de dizer. Na verdade vou além. Há uma direta e imediata relação entre isto e todo o conteúdo da epístola até este ponto. Ele leva a sua argumentação até o fim, e quando chega a esta exposição, ela vem a ser tão-somente um ulterior prolongamento do grandioso tema. É muito importante, pois, que coloquemos esta grandiosa exposição na seu legítimo cenário e na perspectiva certa. Em primeiro lugar, permitam-me lembrar-lhes os principais temas desta epístola. Falando em termos gerais, podemos dizer que nos três primeiros capítulos o apóstolo está lembrando a estes efésios e, por meio deles, está nos fazendo lembrar as grandes doutrinas, os postula dos fundamentais da fé cristã. Ele os faz saber quem são, o que são e como vieram a ser o que são. Esse é o seu tema. Todas as doutrinas importantes da fé cristã podem ver-se nestes três primeiros capítulos. Naturalmente Paulo tem sua própria maneira de colocá-las diante de nós. Sem dúvida, o seu principal objetivo é dar-nos um quadro descritivo da glória e do elevado caráter da vida cristã. Ele o põe às claras na segunda metade do capítulo três, onde diz algumas coisas quase incríveis. Diz ele que ora pelos crentes efésios para que sejam “cheios de toda a plenitude de Deus”, e lhes lembra que Deus “é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera”. Temos aqui uma grandiosa descrição daquilo que o cristão dever ser. Paulo nos disse como nos tomamos cristãos — pelo sangue de Cristo (Efésios 1:7). Tudo isto faz parte do grande plano de Deus, elaborado na eternidade, como o apóstolo nos diz no capítulo primeiro. Cristo veio e a Sua obra de salvação está sendo realizada. Entraram os judeus, entraram os gentios, e estamos juntos neste corpo, neste novo homem, a Igreja (2:16). Entretanto, o apóstolo deseja que os efésios entendam, acima de tudo mais, os privilégios pertencentes a tal vida. Assim ele tinha orado, no capítulo primeiro: “Tendo iluminados os olhos do vosso entendi mento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos.” Noutras palavras, se tão - somente nos déssemos conta do elevado caráter da nossa “sober ana vocação”, toda a situação se transformaria. Ele escreve três capítulos para colocar os seus leitores face a face com este ensino. Depois, tendo feito isso, o apóstolo começa a instar e pleitear com eles, a que vivam de maneira digna da sua vocação. Esse é o método apostólico. Paulo nunca inicia com a moralidade e com a conduta. Invariavelmente temos este grande contexto. Nenhuma pessoa poderá viver a vida cristão enquanto não for cristã, enquanto não souber o que é ser cristão, enquanto não tiver uma concepção da glória da posição cristã. Por isso o apóstolo começa o capítulo 4 dizendo: “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados”, e desse ponto até o fim da epístola ele continua fazendo este grande e grandioso apelo. Mas observamos que, mesmo depois de haver começado com esse temas prático, Paulo ainda não consegue deixar de lado a doutrina, pois, nos primeiros 16 versículos do capítulo 4 temos uma das mais marav ilhosas exposições da natureza da Igreja cristã que se pode encontrar em toda e qualquer parte das Escrituras. Somente a partir do versículo 17 ele volta a esta questão da aplicação prática: “E digo isto, e testifico no Senhor, para que não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade do seu sentido... (mas que) vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” Noutras palavras ele lhes diz: “Agora que lhes recordei o que vocês são, e como vieram a ser o que são, quero que vejam que é essencialmente uma questão de lógica e de aplicação da verdade, que lhes compete viver a espécie de vida que agrada a Deus. Diz ele: vocês nasceram de novo, não são mais como aqueles outros gentios que continuam vivendo em pecado e em inimizade para com Deus. Bem, não contin uem vivendo como se essa ainda fosse a situação com vocês. Seria incoerente fazê-lo, seria irracional. Têm de dar evidência em suas vidas que nasceram de novo. Assim, ele os faz lembrar que o Espírito Santo habita neles; Ele não habita nos que não são cristãos, E os cristãos devem manifestar o Espírito que neles habita. Não devem entristecer o Espírito. Depois lhes recorda que eles são “filhos amados” de Deus. Os outros não são filhos de Deus. Só é possível alguém tornar-se “filho de Deus” em Cristo Jesus. Deus criou todos os homens, e às vezes o termo “filhos” ou “geração” é empregado nesse sentido (Atos 17:28). Todavia, no sentido neotestamentário comum, sermos “filhos de Deus” é estar numa relação que nos é dada; na expressão de João, aos que receberam a Cristo, Ele “deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome” (João 1:12). Portanto, Paulo argumenta: uma vez que vocês são filhos amados de Deus, não se portam como as demais pessoas, há algo especial quanto a vocês, e vocês demonstram isso constantemente em seu procedimento. E então, finalmente, ele os faz lembrar-se de que são filhos da luz. Diz ele: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: andai como filhos da luz” (Efésios 5:8). Vocês vieram das cavernas subterrâneas em que os filhos da iniqüidade passam o seu tempo e mantêm as suas relações. Vocês vieram para a meridiana luz de Deus, para a ampla luz do sol e, portanto, não fiquem às apalpadelas na escuridão, mas vivam como filhos da luz, glorificando seu Pai. Depois vem outra seção, que começa na versículo 18 do capítulo 5, onde o apóstolo diz: “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda (ou “excesso”), mas enchei-vos do Espírito.” Esta nova seção estende-se até o versículo 9 do capítulo 6.0 argumento de Paulo é que, quando somos cheios do Espírito Santo, temos que viver de maneira única, coisa que nunca fazemos se não somos cheios do Espírito. Ele desenvolve o argumento seguindo várias linhas. Se vocês são cheios do Espírito, diz ele, quando se reunirem na comunhão da igreja, haverá grande louvor e ação de graças. “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais: cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração; dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Que descrição da Igreja cristã! E que contraste com o que se vê muitas vezes hoje! Depois o apóstolo põe-se a dizer que todos nós devemos sujeitar- nos uns aos outros, e desenvolve isso em três aspectos principais. As mulheres devem sujeitar-se aos seus maridos, os filhos aos seus pais e os servos aos seus senhores. Contudo, ele sempre o expressa de maneira doutrinária. O marido deve amar sua esposa “como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela.” Não se pode achar esse tipo de sujeição em ninguém, exceto nos cristãos. Mas todo marido cristão e toda esposa cristã devem estar manifestando o fato de que são “cheios do Espírito”; e devem constituir um espanto para o mundo. A mesma coisa vale para a relação de filhos e pais. Esta precisa ser o oposto exato daquilo que testemunhamos hoje — nada de rebelião, porém honrar pai e mãe. E o pai não deve provocar a ira a seus filhos. Antes, uma vez que ele é cheio do Espírito, há compreensão, tolerância, paciência e tudo quanto é necessário. E deve acontecer a mesma coisa quanto aos senhores e servos cristãos, e quanto aos servos e senhores cristãos. Paulo sempre trata dos dois lados. Fala aos servos, que naqueles dias eram escravos, sobre como devem portar-se; e fala aos senhores também, dizendo-lhes que se lembrem de que o Senhor dos servos e deles “está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas.” Dessa maneira Paulo mostra como, nas várias relações hu manas, esta “vida no Espírito” se manifesta. Tendo feito isso tudo, o apóstolo diz agora: “No demais (“Fi nalmente”), irmãos meus”, como se dissesse: agora, à luz de tudo que venho dizendo sobre vocês e sobre o tipo de vida que devem viver, isso é tudo? “Não”, diz ele, “ainda há outra questão.” E essa questão que ele nos apresenta agora, para nossa consideração. Ele não para no fim do versículo 9 do capítulo 6, e pela seguinte razão: não devemos viver esta vida cristã no vácuo. Não se trata apenas de uma questão de, “Bem, aí está isso tudo diante de vocês; agora vão e pratiquem isso.” Há outra matéria que precisa ser considerada, há outro fator que, num sentido, Paulo ainda não mencionou, a saber, a poderosa oposição ao viver cristão, oposição que inevitavelmente todos enfrentamos neste mundo passageiro. É esse o assunto que Paulo introduz aqui. Ele nos havia feito lembrar o que somos, nos havia mostrado as possibilidades próprias da nossa nova posição, e de que não há limite, não há fim para elas. “Que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.” Para “poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o compri mento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento”. Sem limite! Sem fim! “Que coisa maravilhosa!”, dirão vocês. Esperam um minuto, diz o apóstolo.
Permitam-me lembrá-los de que vocês terão que viver essa espécie de vida num mundo em que há um tremendo poder trabalhando contra vocês, de que estarão envolvidos num terrível conflito com o diabo e com todas as suas hostes. Se vocês não compreenderem isso, diz ele, e não se lançarem à ação adequada com respeito a isso, serão indu- bitável e inevitavelmente derrotados. Assim ele é impelido a introduzir este assunto. Daí, “Finalmente” não significa apenas, “Bem, agora, eu lhes disse isto, isso e aquilo. Espera! Há mais uma coisa!” Nada disso! O que temos aqui é uma parte vital do quadro todo. Poderíamos muito bem traduzir a palavra, que em nossa Versão Autorizada aparece como “Finalmente” por “Daqui por diante”, “Por conseguinte” ou “Quanto ao mais” (como na Versão de Almeida, Edição Revista e Corrigida, que diz, “No demais”). Não importa qual dessas expressões empreguemos. Aí temos, então, a cena em que se enquadra este vocábulo, “Fi nalmente”. Não basta saber tudo que o apóstolo já nos havia falado acerca da vida cristã; também precisamos compreender e aceitar o que ele está prestes a nos dizer. Ainda faz parte do quadro todo e do seu ensino essencial. Ao introduzirmos este grande assunto, compete-nos primeiro ofere cer uma ampla análise da seção, expor as divisões da matéria, para podermos ter o quadro bem claro em nossas mentes. Feito isso, farei alguns comentários gerais da matéria, antes de proceder à análise minuciosa. Mas, ao dividir esta seção a partir do versículo 10 e indo até o versículo 19 ou 20, vejo-me ante uma dificuldade, embora esta não seja de vital importância para a verdade. Existe uma obra muito famosa sobre este assunto, de William Gumall, um grande puritano que viveu há 300 anos, obra intitulada “O Cristão com Armadura Completa” (The Christian in Complete Armour), um livro volumoso que felizmente está de novo em disponibilidade em nosso país (Grã-Bretanha). É um grande clássico que tem alimentado a alma a incontáveis peregrinos cristãos durante os últimos 300 anos. Agora, para minha decepção e consternação, não posso aceitar a divisão que William Gumall faz do assunto. Num sentido esta é uma questão mecânica, porém apesar disso, me parece importante. Eis como o divide Gumall: diz ele que aqui há duas partes principais, a primeira sendo o versículo 10, somente este versículo. A segunda parte, diz ele, inclui os versículos 11 a 20. Ele expõe a matéria da seguinte maneira: primeira parte, versículo 10 — “Breve, mas suave e poderoso encorajamento” para este combate cristão. Segunda parte, versículos 11 a 20 — temos aqui “diversas orientações para que os cristãos conduzam este combate de maneira a mais vitoriosa, com alguns motivos esparsos aqui e ali entre elas.” Realmente não posso aceitar essa divisão, e me atrevo a sugerir uma melhor. Concordo que há duas partes principais, no entanto, na minha opinião, a primeira vai do versículo 10 ao 13, onde temos uma exortação geral. A segunda parte, nos versículos 14 a 20, dá instruções detalhadas com relação à exortação geral. Parece-me que é esta a divisão natural. Primeiro, o geral; depois, o particular. É evidente que no versículo 14 o apóstolo está partindo daquilo que tinha acabado de dizer em termos gerais; agora ele o vai desenvolver em particular. “Estai pois firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça”, etc. O trecho que vai do versículo 14 em diante é, evidentemente, a aplicação pormenorizada do que ele dissera em geral na primeira parte, versículos 10 a 13. Todavia, devemos subdividir a primeira parte. Nos versículos 10 a 13 temos o que denomino “uma exortação geral”, ou que poderia ser mais bem descrito como “uma convocação para a batalha”. Não consigo entender como Gumall pôde introduzir aqui a palavra “suave” (“sweet”). Ele acrescenta a palavra “poderoso”, admito — “Breve, mas suave e poderoso encorajamento”. E o que me chama a atenção é o poder; é uma emocionante convocação para a guerra, uma ressonante exortação. Mas o apóstolo faz uma divisão disso. Primeiro, ele nos diz como preparar-nos para esse combate, e há duas subdivisões: (1) Versículo 10: “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder”. (2) Versículo 11, com repetição no versículo 13, para ênfase: “Revesti-vos de (tomai) toda a armadura de Deus.” Depois, no final do versículo 11 e no versículo 12 ele dá a razão pela qual faz esta convocação para o combate. A primeira pergunta é: como devo preparar-me para o combate? E a resposta é dupla: “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder”; e: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus.” Em seguida, porém, ele faz uma coisa que invariavelmente se vê em todas as suas cartas. Ele nos diz por que precisamos dessa preparação. Pois bem, isso é típico das Escrituras, que nunca nos mandam fazer uma coisa sem explicar por que devemos fazê-la. Por que deverei ser forte “no Senhor e na força do seu poder”? Por que será absolutamente indispensável que eu me revista, não apenas de uma ou duas peças da armadura, e sim “de toda a armadura de Deus”? Eis a resposta, de novo subdividida: no versículo 11 ele diz: será melhor que vos revistais de toda a armadura de Deus “para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.” Depois ele se põe a desenvolver o ponto no versículo 12, que é apenas uma análise das “ciladas do diabo”. “Por que deverei revestir-me da armadura toda?”, perguntará alguém. “Por que deverei cuidar para ser forte no Senhor e na força do seu poder?” Aqui está a resposta: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. Aí está a razão pela qual você precisa disso tudo, e será um tolo se não compreender isto e se deixar de agir de acordo. Você se defronta com esse tipo de inimigo e de oposição, diz o apóstolo. Entretanto Paulo acrescenta também: “para que possais resistir no dia mau”. A vida é sempre uma batalha, mas há ocasiões piores que outras. Há “dias maus”. Às vezes, quando acorda de manhã, você se sente (não se sente?) como se tudo irá correr mal. É um dia mau, e o diabo parece ocupar-se em seguí-lo por toda parte, em ameaçá-lo, insultá-lo, em zombar de você, ridicularizá-lo, em lançar-lhe dardos inflamados! Bem, há dias maus, e o homem que não se der conta da sua ocorrência, certamente será derrotado. Se você quiser ser capaz de “resistir no dia mau”, ser forte “no Senhor e na força do seu poder”, revista-se “de toda a armadura de Deus”. Você precisará dela toda. E depois, como se quisesse aplicar 9 ponto diretamente a nós, ele diz: “e, havendo feito tudo, ficar firmes.” É uma coisa e tanto ser capaz de “ficar firme” num mundo como este. Há gente caindo a torto e a direito, por toda parte. Vê-se isto no mundo e, infelizmente, vê-se isto na Igreja. É grande coisa ser capaz de “ficar firme”. Esse é o por quê da exortação e da explicação que o apóstolo dá do único modo pelo qual a pessoa pode ficar firme. Essa é, pois, a nossa análise da primeira das duas partes principais à qual chamo “Uma exortação geral”, ou “Uma convocação para o combate”. E então, na segunda parte Paulo se põe a dar-nos as instruções detalhadas. Ele não se arrisca. Como um bom professor, ele nunca toma coisa alguma como líquida e certa. Ele pergunta: você se revestiu de toda a armadura? Você está partindo com os seus lombos cingidos? A couraça está bem colocada? Seus pés estão calçados? Sua cabeça e todas as partes estão cobertas? Toda as partes devem estar bem guarnecidas; assim, ele as examina minuciosamente. Não se detém após uma instrução geral, mas prossegue e dá instruções detalhadas sobre como cada parte deve ser vigiada e protegida. O quadro está claro em nossas mentes? Tenho que compreender quem sou e o que sou, e é inevitável que eu deseje viver de maneira digna da minha vocação. Quando você visita um país estrangeiro, deve lembrar-se da sua nacionalidade, e não deve deixar que o seu país sofra rebaixamento. Por isso mesmo deve cuidar muito do seu compor tamento. Este é um princípio que aplicamos em toda parte na vida. Aos filhos se diz que se portem bem nas festas. Por quê? Porque são representantes da família. E é a mesma coisa conosco, não importa que idade tenhamos. Contudo isso não basta; temos que compreender mais uma coisa, e temos que estar preparados para enfrentá-la, a saber, esta oposição movida pelo diabo. Desejo fazèr alguns comentários gerais do ensino do apóstolo nesta altura, antes de chegarmos ao tratamento detalhado. Tomemos, por exemplo, esta questão da relação desta seção com tudo que a precede. Alguém poderá dizer: “Pois bem, em que medida isto difere do que Paulo já nos havia dito?” A diferença é que, até aqui, Paulo tem falado da vida cristã mormente em termos do conflito que temos com o mundo que nos cerca, e da “carne”. Ele sabe que os crentes efésios, embora cristãos verdadeiros, ainda têm em si algo da velha natureza. Ainda há pecado no corpo, na carne, e até aqui ele estivera realmente tratando desse mal. Há um inimigo por dentro, há um poder oculto que está sempre pronto a assumir o controle da nossa carne e, como diz o apóstolo, escrevendo aos romanos, está sempre pronto a reinar em nosso “corpo mortal” (6:12). Ora, em certo sentido é disso que ele estivera tratando até aqui. Mas agora ele fala do inimigo que está fora de nós — o diabo e suas hostes. Até aqui ele não tinha tocado nisso. O versículo 12 acentua imediatamente a diferença. “Porque não temos que lutar (somente) contra a carne e o sangue.” Não é só contra a carne e o sangue que temos que lutar, e sim também “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” Portanto, não há diferença essencial entre aquilo de que Paulo vai tratar agora e aquilo de que vinha tratando até aqui. Não devemos exagerar, estabelecendo aqui uma distinção absoluta. É uma distinção no pensamento, é claro, porém não é uma distinção na prática. O que quero dizer é que o diabo pode agir em nós, e pode fazê- lo por meio dos nosso corpos, por meio dos nosso instintos. O diabo pode utilizar-se de qualquer coisa. Indicarei mais adiante como ele pode até causar doenças, indisposição, depressão e infortúnio. O diabo pode fazer tudo isso dentro de nós, de modo que não devemos fazer uma divisão absoluta aí. E, contudo, é uma divisão deveras real. Noutras palavras, nunca devemos esquecer-nos do diabo, nunca devemos esquecer-nos dos “principados” e “potestados”. Jamais devo pensar que todo o meu problema se limita àquilo que há dentro de mim e das outras pessoas. Acima e além disso está este outro fortíssimo poder em formação de combate contra mim, o mais forte de todos os poderes fora o poder do próprio Deus. Não lembrar este fato básico é expor-se ao fracasso e à ruína. O grande problema do mundo atual, e infelizmente da Igreja, é que tão pouco sabem do diabo e dos “principados" e  “potestades”. Muitos ensinamentos a respeito da santidade e da santificação nunca sequer mencionam o diabo e esses poderes. Considera- se o problema como uma coisa limitada a nós mesmos. Daí a total falta de adequação de muitas soluções propostas. Mas, além disso, como já procurei dar a entender, esta seção da epístola é de vital importância quanto a todo o problema da doutrina bíblica sobre a santificação e a santidade. É uma das passagens cruciais, no que se refere a essa doutrina, porém, como já disse, é uma passagem curiosa e estranhamente esquecida e negligenciada. Que é que ela nos diz? A vida cristã, em primeiro lugar, é um combate, é uma luta. “Temos que lutar.” A seção toda é destinada a imprimir em nós este fato. Não há maior e mais grosseira falsificação da mensagem cristã do que aquela que a retrata como nos oferecendo vida fácil, sem combate nem conflito. Há tipos de doutrina da santidade que ensinam justamente isso. Seu lema é: “É muito fácil”. Dizem eles que o problema está em que muitos cristãos ignoram esta fato e, por isso, continuam lutando e pelejando. Essa é a característica essencial do ensino das seitas. É por isso que elas sempre são muito populares. “Muito fácil! Uma vida tranqüila!” Não se pode encaixar isso nesta epístola, com o seu “Temos que lutar! ” “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti- vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes.” A primeira coisa que temos que perceber é que a vida cristã é uma guerra, que somos estrangeiros em terra alheia, que estamos no território do inimigo. Não vivemos no vácuo, numa estufa de floricultura. O ensino que dá a impressão de que a vereda para a glória é inteiramente fácil, simples e plana não é cristianismo, não é o cristianismo de Paulo, não é o cristianismo do Novo Testamento. Este é sempre o rótulo do remédio do curandeiro, que cura tudo com a maior facilidade. Basta uma dose, e o mal se vai! Em segundo lugar, este é um combate que eu e vocês temos que travar. “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.” Vocês têm que ser fortes. “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes”, “e, havendo feito tudo, ficar firmes” — “Ficai firmes, pois” — VÓS! Não é somente uma guerra; é uma guerra na qual eu e vocês temos que pelejar. Que isto fique claro para nós. Há um ensino que diz: “Amados irmãos, vocês vêm cometendo um grande erro; vocês vêm procurando lutar nesta batalha; precisam parar com isso.” Diz essa doutrina que só nos cabe fazer uma coisa: “Entreguem tudo ao Senhor”, e tudo correrá bem. “Entreguem tudo ao Senhor; Ele lutará por vocês.” Mas não há como enquadrar isso nos ensino que temos nesta passagem. Não vejo o apóstolo dizendo-me que entregue tudo ao Senhor, que Ele travará as minhas batalhas por mim, enquanto que eu simplesmente me sento e gozo o fruto da Sua vitória. Isso não está no texto! Eu tenho que lutar! Outro modo como esse ensino é expresso às vezes é o seguinte: “Soltem-se e deixem tudo com Deus”. “Soltem-se”, dizem os mestres desse ensino; “Vocês já se empe nharam, já tentaram... soltem-se, deixem tudo com Deus. Tudo está bem, vocês já têm a vitória. É muito simples; não se requer nenhum esforço.” Mas certamente o que lemos em Efésios é exatamente o oposto desse ensino. Eu e vocês é que temos que estar na luta. Graças a Deus, recebemos força, poder e armas, porém nós é que temos que pelejar. Recebo tudo de que necessito, e recebo o poder para utilizá-lo. Não relaxo pura e simplesmente, ficando meramente a olhar e a colher os frutos da vitória do Outro. Não, Ele me faz mais que vencedor; contudo a batalha é minha, e eu é que tenho que lutar nela. Estes princípios são fundamentais com relação à doutrina da santificação. E creio que grande parte do declínio da Igreja cristã atual se deve ao fato de que está na moda esse outro ensino. Pois bem, em terceiro lugar, observem a maneira pela qual somos chamados para este combate. Notem como Paulo expressa a convo cação, ou seja, esta instrução geral, esta exortação geral. Tenho-me referido a ela como “uma convocação para o combate”. O outro ensino a que me referi, às vezes se apresenta como oferecendo uma espécie de clínica para almas doentes. Dizem os seus promotores: “Você está espiritualmente enfermo, espiritualmente ferido e espiritualmente derrotado. Há uma clínica para você e há uma mensagem que lhe dará alívio e que ajudará a curar as suas feridas, e o levará a um caminho de vitória sem luta.” Uma clínica! Todavia não há clínica aqui; o que há é um quartel! Ou deixem-me expressá-lo doutro modo. Não há nada de sentimen tal aqui. Estabeleço como uma proposição fundamental que, se algum ensinamento concernente à santidade e à santificação é sentimental, não é bíblico! Há uma série de livros que se traem, ao que me parece, por seus próprios títulos. Um exemplo é a obra intitulada, “Conversas Tranqüilas sobre Poder” (Quiet Talks on Power). Poderá alguém encaixar essa idéia nas palavras que o apóstolo emprega aqui? Há uma contradição nos termos empregados. Não se pode ter uma conversa tranqüila sobre poder; não se pode ter uma conversa tranqüila sobre as Cataratas do Niágara; não se pode ter uma conversa tranqüila sobre a explosão de uma bomba atômica. Uma conversa tranqüila sobre poder! É uma coisa sentimental, molenga, fraca. Não é isso que temos aqui! Ouso ir mais adiante e dizer que, certamente, nada tem feito tanto dano à verdadeira doutrina da santificação como aquilo que geralmente se descreve como “conversas devocionais”. Isso faz parte deste mesmo “belo ensino” — conversas ou palestras devocionais tranqüilas, com ilustrações ingênuas e melosas! Mas não é disso que o apóstolo está falando. O que temos aqui é o oposto exato. Temos uma atmosfera marcial, um chamamento vibrante, estimulante. Éum toque de clarim — “FORTALECEI-VOS NO SENHOR E NA FORÇA DO SEU PODER. REVESTI-VOS DE TODA A ARMADURA DE DEUS.” Vocês não ouvem o clarim e a trombeta? É uma convocação para a batalha; estamos sendo despertados, estamos sendo estimulados, esta mos sendo postos de pé; é-nos ordenado que sejamos homens. Toda a tonalidade é marcial, é varonil, é vigorosa. Depois vamos tratar de aperceber-nos de que não há nada rápido e fácil nisso tudo. Temos que continuar pelejando. “Vista a armadura do evangelho. Vista cada peça com oração.” Não fazemos simplesmente uma coisa e depois tudo fica bem, tudo fica certo. Não. Paulo nos dá todos estes pormenores, e requer tempo para levá-los a bom termo. Não há nada rápido e pré-fabricado nisso; temos que desenvolvê-lo e levá- lo a efeito ponto por ponto. Finalmente, temos que continuar a fazê-lo. “Não há dispensa nessa guerra.” Enquanto eu e você vivermos neste mundo, o diabo estará presente com toda a sua malignidade e perversidade; e ele nos com baterá até o fim, ele nos combaterá até ao nosso leito de morte. Isso é falta de esperança? É o contrário! É glorioso. É-nos dado o privilégio de seguir as pegadas de nosso Mestre e Senhor. “Qual ele é, somos nós também neste mundo” (1 João 4:17). É um conflito tremendo; mas eu posso fortalecer-me “no Senhor e na força do seu poder”; posso revestir-me de “toda a armadura de Deus”. Você está pronto para a batalha? Está alerta? Está de pé? Estará você cedendo às suas fraquezas, aos seus caprichos e às suas fantasias, e estará tendo pena de si mesmo, queixando-se e gemendo por este e aquele problema ou situação? Levante-se, sacuda tudo isso, ponha-se de pé, seja homem! Trate de dar-se conta de que você é um membro deste poderoso regimento de Deus, travando a batalha do Senhor e destinado a usufruir os gloriosos frutos da vitória durante as incontáveis eras da eternidade. Você ouviu o toque de reunir do clarim? “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus.”

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Salmos 1.5,6

4 Os pagãos e perversos não suportarão a ira de Deus no dia do Juízo Final (76.7; 130.3; Ed 9.15; Ml 3.2; Mt 25.31-46; Ap 6.17). A expressão original “comunidade” refere-se à “assembléia” dos crentes em Deus (justos); os adoradores que se reúnem no santuário para o culto e serviço espiritual dedicado ao Senhor (15.1,2; 22.25; 26.12; 35.18; 40.9,10; 111.1; 149.1).

5 O resultado final de uma vida dedicada à impiedade, sob a influência do maligno, é a punição eterna (Ap 20.11-15).  

Salmos 1:2 Ao contrário: sua plena satisfação está na lei do SENHOR ,3

3 Senhor: em hebraico YHWH (o nome sagrado e impronunciável de Deus, mais tarde transliterado para Yahweh ou Javé), é o mais significativo nome de Deus no AT. Tem um sentido duplo: o Ser auto-existente, pois a palavra no original é relacionada ao verbo “ser”  (Êx 3.14), e o Redentor de Israel (Êx 6.6). Esse nome ocorre 6.823 vezes no AT, especialmente associado à santidade de Deus (Lv 11.44-45), a seu ódio contra o pecado (Gn 6.3-7) e a sua misericordiosa provisão de redenção (Is 53.1-10). A tradição judaica e cristã considera este Salmo como messiânico, da mesma forma que o Sl 110. Suas perspectivas são messiânicas e escatológicas. Na expressão original “conhecer o Senhor” ou, literalmente, “conhecendo o Senhor”, o particípio hebraico yôdêa está no estado construto, que rege o objeto direto. Portanto, “Senhor” é objeto do verbo “conhecer” e não, sujeito. Na frase, está subentendido o sujeito de totalidade. 

Salmos 1:1 (2 Ímpios)...

2 Ímpios: pessoas sem piedade, cruéis, desumanas, sem o devido respeito a Deus e à sua Palavra, incrédulas, auto-suficientes, arrogantes, que não enxergam seus erros e não se arrependem. O termo hebraico chataim significa a perversidade franca, impiedosa e permanente.