segunda-feira, 14 de julho de 2014

3 - O INIMIGO - Exposição de Efésios 6.10 a 13

3 - O INIMIGO

“Doravante”, diz o apóstolo, “é isto que vocês terão que ter em mente” — e deste versículo dez até ao versículo vinte, ele se põe a tratar da questão mais urgente que o povo cristão defronta. É a luta, o combate que todos os que vêm a este mundo têm que travar. Até aqui examina mos o assunto de maneira geral, introduzindo-o e dividindo a decla ração em suas duas partes principais. Vimos também que o apóstolo pressiona estes efésios, e a nós, com a instrução ministrada porque esta é, evidentemente, a única maneira pela qual esta guerra pode ser travada com sucesso. O cristianismo é uma religião exclusiva; ele reivindica que ele, e somente ele, é a verdade de Deus. E não é só que este é oúnico caminho; tampouco precisa ele de socorro ou de assistência. Não há nenhuma necessidade de adicionar-lhe um pouco de budismo ou de maometanismo ou de confucionismo ou de qualquer outro “ismo”. Ele é o caminho, e o é completo, inteiro. Daí o apóstolo instar com os cristãos a que, não somente o considerem, mas também o compreen dam e, acima de tudo, o apliquem na prática. Chegamos agora à explicação do apóstolo da razão pela qual ele os pressiona com isto de maneira a mais urgente. Isto é bem característico dele. Ele não apenas faz afirmações; ele dá as razões pelas quais as faz. Devemos revestir-nos de toda a armadura de Deus “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim” etc. Este é um dos aspectos mais gloriosos da fé cristã. Você não pode entrar nisso pelo seu raciocínio, porém, no momento em que entra, verá que é a coisa mais razoável do mundo — repleta de elementos para o entendimento, repleta de explicações. O cristianismo, diversamente de tantas seitas, não é apenas algo que nos leva a persuadir-nos sem envolver o nosso pensamento. Ele não nos diz apenas alguma coisa, a qual devemos repetir mecanicamente, seja verdade ou não, e quer nós a sintamos quer não. Isso não é cristianismo. Este sempre dá as razões. Assim, aqui o apóstolo nos oferece a explicação pela qual nos exorta a fortalecer-nos “no Senhor e na força do seu poder” e a revestir-nos “de toda a armadura de Deus.” Precisamos disso tudo; e ele nos diz por que, particularmente nos versículos 11 e 12. Estes versículos constituem uma declaração notável e extraor dinária. Pergunto-me se alguém não terá ficado surpreso por nos
propormos a considerá-la, e se não se terá sentido tentado a dizer, “Bem no meio da vida do mundo como este é hoje, com as condições e situações como elas são, devemos realmente gastar nosso tempo examinando e ponderando o que a Bíblia diz a respeito do diabo e destes principados e potestades?” Se você se sente assim, tudo que lhe posso dizer é que, longe de ser realista, como provavelmente você se imagina, é, dentre todos, o único que não está encarando de modo real a situação do mundo como ela é neste momento. Não há nada mais realista nesta hora do que o que estamos para considerar. Não há nada no mundo que seja tão urgentemente necessário neste momento como entendermos esta coisa da qual o apóstolo nos fala aqui. Não mencionarei nenhum estadista, nenhum partido político, de nenhum país, nem tampouco nenhuma organização social ou política — e, não obstante, aventuro-me a afirmar que o que vamos considerar a seguir é mais relevante para as condições do mundo do que toda a conversa sobre política, sobre relações internacionais e sobre tudo quanto os estadistas e os seus seguidores gostam de abordar. Essa afirmação é forte e ousada, como estou bem ciente; mas se você ao menos crê na Bíblia, verá que o que digo é verdadeiro, inevitavelmente. Estamos tratando, lembre-se, da causa principal da situação do mundo, e por esta razão posso dizer que isto é mais urgentemente relevante do que qualquer outra coisa. Permita-me usar uma comparação que tenho empregado muitas vezes. Parece-me que o que os pensadores moder nos constantemente deixam de fazer é diferenciar entre uma doença propriamente dita e os seus sintomas. Uma doença pode dar surgimento a muitos sintomas. Tomemos um exemplo ao acaso. Com a gripe comum você pode pegar pneumonia. A doença primária está, num sentido, em seus pulmões. Que isto valha, por ora, como uma tosca definição de pneumonia. Mas você verá que aparecerão muitos outros sintomas. Terá dor de cabeça, sentir-se-á febril, sentirá mal-estar e dores estranhas no corpo todo, e poderão ocorrer suores, e assim por diante. Há numerosos sintomas da doença, e o perigo é que passemos o tempo todo medicando somente os sintomas. Você pode tomar várias coisas para aliviar a dor de cabeça, como aspirina, por exemplo, e sua cabeça melhorará por algum tempo. Todavia, não fará nenhuma diferença para a pneumonia. E assim você poderá continuar tratando de um sintoma atrás do outro. Você se verá muito ocupado, e terá que ir tratando de novos sintomas constantemente. Entretanto, o que re almente importa é a doença mesma, e não os sintomas. Qual é o principal problema com o mundo neste momento? Eis aí os estadistas e outros reunindo-se ativamente em conferências, discutindo, suspendendo as reuniões, e depois reunindo-se outra vez. Que se passa? O problema é que eles não se dão conta da natureza da doença, nunca entenderam a causa. E a maior tragédia é que a Igreja cristã, a qual unicamente tem a mensagem que pode pôr às claras a causa e recomendar o único remédio capaz de curar — digo que a própria Igreja cristã, em vez de ensinar o remédio, fica a metade do seu tempo, ou mais, apenas dizendo coisas que os estadistas e os políticos podem dizer. Naturalmente ela faz isso porque quer dar a impressão de que a mensagem cristã é “relevante". Em geral se pensa que a mensagem só é relevante se o mensageiro fala em termos terrenos e temporais. Se você falar acerca destes estadistas citando-os nominalmente, se se ocupar com manifestações particulares do problema, tais como bom bas etc., você estará sendo tremendamente relevante! Que coisa patética! Que coisa trágica! Medicar os sintomas e desconhecer a doença! A tarefa da Igreja cristã é descer à causa fundamental do problema. Somente ela pode fazer isso. E é porque aquilo que estamos exami nando aqui dá o único conhecimento verdadeiro da situação do mundo, e do que se pode fazer a respeito, que eu estou afirmando que essa é a mensagem mais urgentemente relevante para este mundo conturbado dos nossos dias. Mas, naturalmente, como procurarei demonstrar, é uma coisa totalmente ridicularizada pelo mundo. Apesar disso, e na verdade por causa disso, vamos examiná-la. Em primeiro lugar, o apóstolo chama a nossa atenção para o fato do conflito. Notem-se os seus termos: “temos que lutar”. Ora, o termo “lutar” causa muita dificuldade aos comentadores. A dificuldade surge porque o apóstolo diz “temos que lutar” e, depois, quando passa a descrever a “armadura”, emprega termos que nada têm a ver com “luta”. Quando ele passa aos detalhes da armadura, parece estar pensando mais em dois exércitos a defrontar-se em conflito, em dardos de fogo e em espadas. Parece haver alguma confusão. É muito difícil determinar exatamente por que o apóstolo empregou o termo “lutar” (“wrestle”, que se refere mormente a luta livre de atletas). Essa foi a única ocasião em que ele empregou esse termo. A explicação óbvia deve ser que seu desejo é mostrar a natureza íntima do conflito. Embora esteja certo, como veremos, pensar em grandes batalhões formados, e em duas grandes forças antagônicas, devemos compreender que, ao mesmo tempo, é uma questão individual. A idéia de luta leva-nos imediatamente a isto: dois homens atracando-se. Assim, devemos ter em mente os dois aspectos. Somos participantes deste tremendo conflito espiritual que se dá em volta de nós, perto de nós e em nós. Todavia, também estamos engajados individualmente, cada um de nós. Não devemos vigiar somente como partes de um exército; também devemos vigiar individualmente. Acredito que Paulo empregou a expressão “temor que lutar" a fim de mostrar esse aspecto da verdade. Mas depois ele utiliza estas outras expressões: “Tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau” — e então — “havendo feito tudo, ficar firmes”. Ele emprega essas expressões por uma única razão, a saber, pôr às claras a ferocidade e aterrível natureza do conflito, como também, o seu caráter. Como cristãos, estamos envolvidos neste conflito tremendo, lutando, opondo-nos, resistindo a um inimigo que investe. A primeira coisa que você tem que fazer é repelir os ataques, e terá que continuar fazendo isso porque ele continua sendo o inimigo. E mesmo que você obtenha uma vitória temporária, não diga: “Bem, tudo já passou; agora posso ficar sossegado e sair de férias.” Nada disso! “Havendo feito tudo, ficar firmes.” A idéia é que esta é uma guerra sem tréguas, que “não há dispensas desta peleja”, como o Livro de Eclesiastes o expressa (8:8) mas, enquanto estivermos nesta vida e neste mundo, temos que estar cientes do fato de que estamos engajados numa luta, numa peleja, num conflito. É evidente que é preciso dar ênfase a isto, porque há muitíssimos que não o compreendem. E não compreender que você está num combate só pode significar uma coisa, e é que você já foi tão de sesperadamente derrotado e batido, nocauteado, que nem sabe disso — está inconsciente! O que quero dizer é que você foi completamente vencido pelo diabo. Quem não estiver ciente de que há uma luta e um conflito no sentido espiritual, está como que entorpecido e numa condição perigosa. Ao mesmo tempo, por outro lado, as seitas estão sempre aí; e todo o ensino das seitas — não importa qual delas você especifique — sempre é que você pode ficar fora do conflito, de um modo ou de outro. “Ah, sim”, dizem elas, “é certo que há um problema; mas está tudo bem; você faz isto e aquilo, e tudo estará bem.” Essa é a essência do ensino da Ciência Cristã. Não há conflito, não existe doença, não existe dor. Estas coisas são inexistentes, dizem, e você precisa ficar repetindo isto a si próprio, precisa persuadir-se, e por algum tempo você será muito feliz. Mas isto você faz fugindo dos fatos, voltando as costas à verdade, logrando-se a si mesmo. Todas as seitas fazem isso de algum modo, de alguma forma. Elas querem dar-lhe a impressão de que você pode relaxar e ficar tranqüilo; de que não há conflito, não há luta; enquanto isso, o apóstolo diz: “Temos que lutar”. Você está “resistindo”, há um inimigo que o está atacando sempre, e mesmo que você obtenha a sua vitória, “fique firme”, e não deixe de continuar agindo assim. Fique sempre firme sobre seus pés. Noutras palavras, o que é difícil neste mundo é manter-nos firmes sobre os pés, pois há um inimigo que nos está ameaçando sempre e está sempre tentando derrubar-nos. A grande tarefa da vida, a grande obra da vida é ficar de pé, ficar firme! Ora, esta é a apresentação que o apóstolo faz da questão. Não é minha; é dele. Ele multiplica as suas expressões e as repete para fazer-nos compreender esta idéia — de que estamos no meio de um tremendo conflito. Vamos ver agora o que ele tem para dizer sobre a natureza do conflito. Aqui, como não é incomum em Paulo, ele começa com uma negativa. Nesta altura chegamos à própria essência da questão, àquilo a que chamo um caráter e natureza peculiar e essencial da mensagem bíblica, do princípio ao fim. Isto é uma coisa peculiar à Bíblica. A Bíblia não deve ser classificada como qualquer outro livro porque toda a sua perspectiva é diferente — não só difere deles em pormenores. Ela é essencialmente diferente. É um livro “peculiar”, “especial”. E este é o ponto no qual ela se afasta de todos os outros ensinos que se oferecem à humanidade. Procure ver a sua profundidade, que desafia o nosso discernimento e a nossa compreensão. É isso que toma este livro tão maravilhoso, e que prova que ele é o Livro de Deus. Ele desce às profundezas, vai até às raízes. Não há nele nada que seja superficial, nada que seja fútil e chocho. É na verdade uma revelação divina. Faço estas observações preliminares porque para mim a coisa suma mente importante que podemos captar nesta hora é que no mundo, como ele é neste momento, temos um livro-texto, um manual da vida, que de fato nos propicia um entendimento. Somente o cristão com preende o mundo. Todavia ele o compreende porque aceita este ensino como uma parte essencial da mensagem divina. No entanto vou mais longe; o nosso conhecimento disto e a nossa aceitação disto é uma prova cabal e completa da nossa profissão da fé cristã. Portanto, tomo a liberdade de fazer uma pergunta, antes de dar sequer um passo adiante. Estas frases fazem parte do seu pensamento fundamental — “para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo”? “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principa dos, contra as potestades, contra os príncipes das trevas”? Estas frases estão sempre em seu pensamento como parte da sua filosofia cristã, e estão sempre presentes em sua mente? Ao olhar para o mundo de hoje você logo diz, “Nesta passagem está a explicação”? Você pensa assim normalmente? Tudo que digo é que se você não pensa assim, seu tipo de cristianismo é muito defeituoso. Efésios, capítulo 6, versículos 10- 13 é uma parte vital e essencial da fé cristã. Que diz, então, o apóstolo? Vejamos primeiro os termos negativos — “Não temos que lutar contra a came e o sangue”. Os que conhecem bem a Bíblia sabem que o vocábulo “carne” no Novo Testamento, e especialmente nas epístolas de Paulo, é extensamente empregado com referência à velha natureza pecaminosa. Não o velho homem, mas a velha natureza, a natureza pecaminosa que ainda permanece em nós. Mas este não é o único sentido em que o termo “carne” é empregado, e, obviamente, não é este o sentido em que é empregado aqui. O acréscimo da palavra “sangue” põe isso fora de toda dúvida. Na verdade, no grego, “sangue” vem antes de “carne”: “Não temos que lutar contra o sangue e a carne”. Significa natureza humana, significa homem. Assim, Paulo afirma que não estamos lutando somente contra os homens. O nosso problema não é apenas do “homem” ou da “humanidade”, e sim também de outra coisa mais. Temos aqui uma destas proposições fundamentais das Escrituras. Também vemos aqui quanto ela difere da perspectiva do mundo, mesmo em sua melhor e mais elevada expressão. A primeira coisa que você tem que compreender, diz o apóstolo, é que o problema que o confronta, como indivíduo, e o problema que confronta a humanidade toda, não é um problema meramente humano, um problema terreno. É muito maior e, portanto, muito mais difícil. Vejamos a diferença que há entre isto e aquilo que os não cristãos acreditam. Naturalmente o mundo não crê nisto, e não liga para esta negativa. Então, qual é, de acordo com o mundo, a causa dos nosso problemas? Através dos séculos o mundo sempre se inclinou a acredi tar em diversas explicações. Nos tempos em que a Igreja se estabeleceu inicialmente, o mundo acreditava em vários deuses. Havia um Deus da guerra, havia um Deus do amor, havia um Deus da paz, e assim por diante. Nesta medida, você vê, os homens tinham algum discerni mento, pois achavam que o mundo estava sendo influenciado e governado por certos poderes e forças invisíveis. Achavam que tinha que existir um Deus que se mostrava com todo o seu poder na guerra. Depois, certamente havia também um Deus do amor. E, assim, achavam que o que deviam fazer era aplacar estes deuses. Quando o apóstolo visitou a famosa cidade de Atenas, encontrou-a atulhada de altares dedicados aos diversos deuses. A idéia dos atenienses era que, como estes deuses tinham tanta influência sobre o homem e sua vida neste mundo, obviamente o que deviam fazer era colocar-se do lado dos deuses. Assim, tinham uma multiplicidade de altares e levavam as suas oferendas aos vários deuses e lhes prestavam culto. Acreditavam que os seus problemas eram devidos à sua falha em agradar os deuses. Alguns deles acreditavam em espíritos que habitavam nas árvores, nas pedras, no sol, na lua, nas estrelas; tudo isso faz parte da mesma idéia. O politeísmo, o animismo, todas estas coisas, eram apenas o reconheci mento, por parte da humanidade, de que existem outras forças e poderes que não vemos, mas que parecem exercer enorme influência sobre nós. Depois, um pouco afastados disso, outros começaram a ver que esses não eram deuses, porém eram obviamente criações das mentes e imaginações dos homens. Por conseguinte, começaram a falar em termos de destino. “Ninguém sabe qual é o seu destino”, diziam eles, “tudo que sabemos é que parece existir alguma coisa que nos influência e nos governa, e que é muito poderosa, na verdade mais poderosa que nós. Se você está destinado a fazer esta ou aquela coisa, você a fará; se está destinado a que lhe aconteça uma coisa, isto lhe acontecerá.” O fatalismo era uma crença num poder invisível que os homens não conseguiam definir, mas que (como acreditavam) governava as suas circunstâncias e controlava o que lhes acontecia. Entretanto, falando de modo geral, hoje os homens se apartaram dessa crença, embora naturalmente haja muitos que ainda crêem no destino. Há muitos que, a despeito da educação moderna, acreditam na astrologia e em coisas desse tipo neste sofisticado século vinte do qual temos tanto orgulho. Astrologia — a influência exercida pelos astros, o mês em que a pessoa nasce, e assim por diante! Chamo a atenção para tudo isto porque indica que o homem tem consciência de que há alguma coisa fora dele que faz tremenda diferença em sua vida. Por outro lado, o homem científico moderno, em geral não crê nas coisas às quais acabo de referir-me. Sua posição é que não existe nada fora dele, que o problema é realmente o homem propriamente dito e ele somente. Assim é o homem típico, moderno, instruído, moral. Ele não é cristão. Claro que não! Ele absolutamente não acredita na esfera espiritual. É por isso que ele não crê em Deus, na deidade de Jesus Cristo, no Espírito Santo; é por isso que ele não acredita na existência do diabo e dos “principados” e “potestades”, nos “príncipes das trevas deste século.” Isso de esfera espiritual, para ele não existe. Para ele, a crença nisso nada mais é que uma espécie de remanescente daqueles tempos e condições primitivos quando as pessoas acreditavam em espíritos nas árvores, nos riachos, nas pedras e em tudo mais. Contudo, diz ele, nós ultrapassamos essas fantasias. O homem tem se iludido através dos séculos com o destino e todas estas coisas, e com o absurdo da astrologia! Aí está o seu suposto realista, o homem que reivindica poder governar todas as coisas com a sua mente e que acredita que o único problema é o homem propriamente dito. Noutras palavras, todos os nossos problemas decorrem da ignorância do homem, da sua falta de conhecimento e de compreensão, e da sua falta de desenvolvimento. Para falar em termos gerais, este é seguramente o problema mais urgente que o mundo enfrenta hoje, porque, se tomar o ponto de vista do homem moderno, a esfera espiritual é eliminada inteiramente. Mas essa é a posição de grande número dos nossos semelhantes. Então, se o problema é somente o do homem, e a sua ignorância, qual é a solução? Tais pessoas dizem que essa é uma pergunta perfeitamente válida, e que durante os últimos cem anos, ou por aí, pelo menos duas respostas apareceram. A primeira é a idéia de progresso, de desenvolvimento, de evolução. Não devemos perder a esperança, dizem eles, pois, afinal de contas, o homem está apenas no limiar da concretização da sua grandeza e glória, e infindas possibilidades. Eles nos concitam a olhar para o passado e ver que já houve desenvolvimento e progresso. Já abandonamos o animismo, já demos as costas ao politeísmo, já nos livramos do puro e simples fatalismo. Agora pensamos e raciocinamos. O homem está de fato começando a entrar na sua própria realidade. E isto é inevitável porque há uma energia na vida, um élan vital, uma energia vital. É assim que eles se expressam; não são fatalistas, não acreditam em poderes invisíveis! Mas há na matéria uma energia vital, um poder que impulsiona todas as coisas para a frente e para o alto! Este é o conceito do racionalista moderno que só crê nas coisas sobre as quais se pode discutir racionalmente, nas coisas que podem ser senti das, apalpadas, medidas e manipuladas! Você vê, ele tem que retomar e cair numa “energia vital”, “Energia” com inicial maiúscula. Essa é uma parte da sua explicação, é uma parte do conforto que ele está tentando nos dar. Ele nos diz que não fiquemos impacientes, porém que fiquemos firmes e aguardemos. Há esta prova de progresso e de melhoramento, e isto continuará avançando mais e mais, até que finalmente todos os problemas serão extirpados e o mundo será perfeito. Há muitas variações e modificações desse conceito. Não pre cisamos preocupar-nos em tratar delas. O comunismo é uma delas, naturalmente, com o seu ensino sobre o materialismo dialético e sobre a luta entre o capital e o trabalho, entre a oferta e a procura. Tudo isso faz parte do processo pelo qual temos que passar até chegarmos à sociedade perfeita e sem classes. A verdadeira base filosófica do comunismo é o conceito evolucionista da vida. Há muitos que se confessam cristãos e que, ao que me parece, estão cada vez mais adotando a idéia da evolução. Depois, a outra resposta dada pelo homem moderno é que não devemos fiar-nos passivamente nesta inevitável marcha de avanço e progresso. Devemos, em acréscimo, educar-nos uns aos outros, propa gar o conhecimento, aplicar a nossa razão à situação e conseguir que toda gente faça isso. E eles alegam, deveras confiantemente, que, se tão somente agirmos assim, os nosso problemas realmente serão re solvidos. Acaso não é evidente que esta questão é sumamente vital e urgente? O mundo tem vivido baseado nesse ensino durante o presente século. Isso tem recebido muita publicidade atualmente, e nos é dito que, se tão somente pudéssemos ensinar as massas, educá-las e ensiná-las a ra ciocinar, nunca mais haveria guerra. Elas logo veriam que a guerra é ridícula e que precisamos reunir-nos, fazer conferências e conduzir todas as controvérsias amigavelmente, meios pelo quais todos vivere mos felizes para sempre! Muitos acreditam realmente em tal programa; e o resultado, naturalmente, é que, não acontecendo isso, eles ficarão decepcionados; não poderão entendê-lo e ficarão desnorteados. Mas essa é a idéia predominante, a teoria predominante. É assim que nos é oferecido o conforto do processo evolucionista e a difusão do conhecimento, da cultura e da educação. Para mim está quase além do entendimento que alguém que vê o mundo moderno e lê jornal, possa continuar acreditando nessas teorias. Na verdade, ainda que nunca leiam jornal, como poderá alguém que já conheceu uma pessoa instruída, culta, razoável e que, não obstante, falha lamentavel mente em sua vida pessoal, crer nessas coisas? Como é possível crer que a sabedoria, o conhecimento, a instrução e a capacidade de raciocinar e de usar a lógica, constituem a solução do problema, quando o que se vê diariamente nas vidas dos homens e das mulheres prova exatamente o oposto? É espantoso! Mas o que estou interessado em salientar particularmente é que estas teorias são o oposto daquilo que o apóstolo ensina aqui em Efésios, capítulo seis. “Não temos que lutar contra a came e o sangue.” O problema não se restringe apenas ao nível humano. O homem certamente fornece os problemas mas, mas eles só constituem os sintomas da doença; a causa real está mais para trás — “não... contra a came e o sangue”. É neste ponto que eu justifico a minha afirmação original de que o evangelho, e somente o evangelho, é que garante alguma esperança para este mundo perturbado e infeliz. Toda a base da condução dos interesses humanos está na suposição de que só estamos lutando contra a came e o sangue, de que o problema é o homem, e de que, portanto, o problema só pode ser resolvido mediante recursos humanos, terrenos, e por meios e modos planejados pelo próprio homem. É sempre o homem, a came e o sangue, que está sendo considerado, e somente o homem. Os pensamentos do homem natural nunca vão acima desse nível. O espiritual jamais é mencionado. Aí está uma coisa absolutamente básica. Até aqui expus o assunto negativamente, mas agora vamos exam iná-lo positivamente. “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades.” Note-se como Paulo repete a palavra “contra”, para ênfase. “Mau estilo”, você dirá. “Não temos que lutar contra a came e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades.” Os pedantes e sabidos editores eliminariam estas repetições de “contra”, não eliminariam? “Contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais.” Aqui estamos, mais uma vez, focalizando diretamente aquilo que é deveras essencial no ensino bíblico e cristão. Qual é o problema deste mundo? Qual é a causa basilar dos nossos problemas? Não é o homem! É o diabo e suas forças e poderes invisíveis. Essa é a proposição. É isto que temos que analisar, ou melhor, é nisto que temos que seguir o apóstolo na análise que faz. Primeiro vamos abordá-lo de modo geral. Eis aqui algo em que não somente não se crê hoje em dia, mas que é rejeitado com desdém, é completamente ridicularizado, e é considerado como a mais gozada de todas as piadas. O diabo! Principados e potestades! Poderes espirituais invisíveis! O homem moderno diz que isto é uma afronta à inteligência humana. “Imagine”, diz ele, “alguém do século vinte propondo pregar sobre o diabo e sobre poderes espirituais invisíveis! É um insulto à inteligência. Por que você não nos fala sobre como resolver os problemas internacionais? Por que não começa uma agitação para acabar com a fabricação de bombas? Por que você não é realista? Por que se nega a ser prático? Você está nos domínios do folclore, você ainda revela uma mente primitiva, ainda pensa em termos de contos de fada. Por que não encara os fatos, as duras realidades da vida como ela é hoje, em vez de falar sobre poderes espirituais invisíveis e sobre o diabo? “Ah”, dizem, “tudo isso já passou, é de tempos idos, é absurdo.” O ensino do apóstolo é total e completamente ridicularizado. Mas o que me inquieta é que não só está sendo ridicularizado pelo mundo não cristão em geral, porém não está recebendo muita atenção do povo cristão, e não está sendo salientado por ele, incluindo-se muitos que se chamam evangélicos (isto é, cristãos bíblicos, conservadores). Muitos cristãos estão tão preocupados com algum pecado particular que os está fazendo tropeçar e cair, e tão preocupados com a sua felicidade pessoal, que jamais ponderam este grande problema. São tão introspectivos e subjetivos, que nunca observam o cosmos em sua totalidade, o grande problema do mundo, esta coisa tremenda que o apóstolo coloca diante de nós aqui. Em que medida, volto a perguntar, este ensino concernente ao diabo e seus poderes entra em nosso pensamento habitual e normal? Diz o apóstolo que jamais devemos relaxar, jamais devemos afrouxar a vigilância, mas devemos estar de pé, firmes, prontos e “em armas” o tempo todo, por causa do diabo e seus poderes. Todo este ensino tem sido ridicularizado. Qual será a nossa resposta? Tomo a liberdade de sugerir algumas idéias e linhas de pensamento. Toda esta questão de acreditar no diabo e nos poderes espirituais associados a ele é, afinal de contas, simples mente o problema de acreditar numa esfera ou reino espiritual. Essa é a questão fundamental: você acredita que existe uma esfera espiritual? Há muitos que se dizem cristãos e que, obviamente, não acreditam. Eles reduziram o cristianismo a um ensino ético-moral, e nada mais. Para eles não há nenhuma esfera espiritual, nenhuma região que esteja acima de nós e nos influencie. Talvez digam com palavras que acreditam nessa esfera, porém em sua vida prática não acreditam. Não estão cientes da sua existência. Naturalmente, se uma pessoa não crê em Deus, estará sendo coerente ao negar-se a acreditar que há diabo e poderes espirituais. Se não acredita em Deus, não devo esperar que acredite no diabo. Mas o que não posso entender é uma pessoa que crê em Deus, e não acredita na existência do diabo. Não posso entender uma pessoa que se levanta na Igreja e declara, “Creio no Espírito Santo”, e depois considera o diabo uma piada! Declara, “Creio no Espírito Santo”, mas não crê na existência de espíritos maus. Tal pessoa é completamente incoerente. Afirma que crê num reino espiritual, no entanto crê somente numa metade dele; não acredita na outra metade. O que está envolvido aqui é toda a nossa atitude para com o reino espiritual que está acima de nós e fora de nós. Ou, deixe-me colocar a questão da seguinte maneira, para que você possa ver com exatidão onde você está, se não acredita na existência do diabo e destes poderes espirituais, ou se não tem certeza sobre isto. Em última instância, o problema não é crer se o diabo existe, é crer na autoridade das Escrituras, pois isso também está intimamente en volvido. Há pessoas que não acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus, que rejeitam a concepção virginal e os milagres, e não crêem na expiação vicária e na personalidade do Espírito Santo; e não me surpreende que rejeitem a idéia da existência do diabo e dos poderes do mal. São pessoas instruídas, doutas, cultas, são gente do século vinte. Elas chegam a este velho Livro e dizem: “Este livro é velho, é um livro como outro qualquer. Há muito lixo nele, muito erro. Os escritores puseram nele aquilo em que se acreditava na época, mas, naturalmente, agora sabemos que não é verdade.” Assim, elas se aproximaram da Bíblia como autoridades; o Livro não é a autoridade, elas é que são. Para fora isto, para fora aquilo, para fora o Espírito Santo, para fora o diabo e muitas outras coisas. Que é que resta? Simplesmente aquilo que eu posso entender e aceitar, aquilo que eu creio ser verdadeiro. Eu sou a minha autoridade, a minha razão está no trono! Portanto, esta não é apenas uma questão de crer que o diabo existe; envolve toda a nossa atitude para com as Escrituras. E é assim porque este ensino sobre o diabo e as suas hostes é uma parte essencial, uma parte vital do ensino bíblico. Acha-se em toda parte das Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse, e principalmente em Gênesis e em Apocalipse. O próprio Senhor nosso ensinou isto, e, se você crê nEle e no Seu ensino, terá que crer no que Ele disse a respeito do diabo e seus poderes. Assim nos defrontamos face a face com esta pergunta: cremos na Bíblia como a nossa única revelação da verdade, e nossa única autoridade, ou estamos confiando em nós mesmos e em nosso entendimento? Míseros vermes que somos, e fazendo do nosso mundo esse caos, com as nossas mentes e com o nosso entendimento, quem somos nós para intrometer-nos na esfera espiritual e dizer o que é verdadeiro e que é falso? Como é ridículo tudo isso! Mais ainda! Crer na existência do diabo e seus poderes é um funda mento indispensável para a crença no ensino bíblico sobre o pecado e o mal. Você não pode crer realmente na doutrina bíblica concernente ao pecado, se não crê na existência e obra do diabo e nos principados e potestades associados a ele. Ademais, crer que existem o diabo e suas hostes é absolutamente essencial para um correto entendimento da doutrina bíblica da sal vação. “Ah, mas”, dirá você, “isso não pode ser. Certamente tudo que é necessário é que eu creia que Cristo morreu na cruz por meus pecados.” Até aqui você tem razão, entretanto, porque foi preciso que Ele viesse? Que fez Ele realmente na cruz? Segundo o apóstolo Paulo, Ele esteve lá “despojando os principados e potestades” e na cruz Ele “os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Colossenses 2:15). Por que Cristo teve que vir? Eis uma das Suas próprias respostas: “Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem; mas, sobrevindo outro mais valente do que ele, e ve- ncendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava, e reparte os seus despojos” (Lucas 11:21-22). Não vá pensar que você pode compreender a doutrina bíblica da salvação e rejeitar a realidade do diabo. Não pode! Você não pode sustentar a verdadeira doutrina da salvação, se não crê na realidade do diabo e dos seus poderes. Você pode apenas ter passado por um pequeno tratamento psicológico que o faz sentir-se feliz, porque julga que os seus pecados foram perdoados; mas não entendeu o ensino bíblico sobre a razão pela qual Cristo veio, o que teve que fazer, a luta e o conflito, a agonia no jardim, as tentações e tudo que sofreu na cruz. Isso não tem sentido para você, nem pode ter. Assim, você não tem o evangelho completo, se é que tem evangelho algum. Em conclusão, tomo a afirmar que você simplesmente não pode compreender a história registrada na Bíblia, toda a história do mundo desde o alvorecer da civilização até à época atual; não pode com preender a história moderna e o que está acontecendo no mundo hoje, a confusão, a espantosa realidade do mundo como ele é, apesar do progresso de que tanto ouvimos falar; menos ainda você pode com preender o futuro, ou ter alguma esperança quanto ao futuro; a não ser que você venha a ter uma clara compreensão daquilo que o apóstolo ensina aqui sobre o diabo e os principados e potestades, sobre os numerosos governantes destas trevas, os espíritos malignos nos luga res celestiais. Talvez você diga que isso é deprimente. Deprimente? Acho isso o ensino mais confortador, prazeroso e otimista que já conheci. O que para mim é deprimente é defrontar-me com uma situação que não posso entender. Se não entendo uma situação, sinto- me perdido. Nunca me contentei em medicar sintomas. Eu sabia que o paciente poderia sentir-se um pouco melhor, porém a questão era: que é que esse homem tem? E eu me sentia frustrado enquanto não soubesse a resposta. É importante saber qual é o problema, fazer uma diagnose; e, no momento em que você tem o diagnóstico certo, sente-se melhor e fica satisfeito porque sabe do que está tratando. Contudo, graças a Deus, este ensino apostólico não para na delineação do caráter do problema. Ele faz isso de maneira muito realista, mas depois nos leva à fonte de poder e da vitória. Ele nos dá uma visão da história que nos toma confiantes e seguros. Apesar de estar combatendo o diabo e os principados e potestades, e lutando contra hordas infernais, posso ser forte “no Senhor e na força do seu poder”. Posso revestir-me de toda a armadura de Deus, posso resistir e, havendo feito tudo, ainda posso ficar firme, e erguer-me com confiança, sabendo que nEle e na força do Seu poder estou seguro, e que a Sua vitória final e definitiva é sempre certa.

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